em muitas cidades brasileiras há uma região apelidada "feira do paraguai", onde é possível comprar tudo o que existe do outro lado da ponte da amizade, principalmente produtos digitais, que são de maior valor agregado e fazem mais sentido do ponto de vista dos sacoleiros. e isso por preços que fazem sentido pros consumidores.
ocorre que a "profissão" de sacoleiro é ilegal. na verdade trata-se de contrabando puro e simples. ou tratava-se. em 29 de junho, talvez reconhecendo a incapacidade para cuidar do eterno problema da fronteira paraguaia, que é de fato uma região de livre comércio, o governo emitiu a medida provisória 380, que cria um regime especial de tributação [25%] para os produtos vindos do país vizinho e estabelece uma cota anual de importação [R$240 mil] por sacoleiro.
resta ver se estes dois números são suficientes para "organizar" a fronteira. a diferença de preço de um ipod de 4GB, entre o paraguai [menos de 500 reais] e o brasil [mais de 1.000 reais], é de mais de 100%, sem procurar muito. se os sacoleiros resolverem trazer só ipod e iphone, por exemplo, podem facilmente dominar o mercado nacional. o que seria, de novo, muito bom para os consumidores.
e isso nos obriga a fazer a seguinte pergunta: porque o brasil insiste em impostos de importação estratósfericos sobre produtos que não produz e que não tem a menor chance de produzir? até parece que alguém, em algum lugar, acredita piamente que o mercado nacional é importante o suficiente para a apple vir pra cá produzir ipods e iphones, só para consumo local. porque certamente o brasil não seria competitivo, hoje, como plataforma de produção para o mercado mundial. se fosse, os artefatos digitais que inundam o planeta estariam sendo produzidos aqui e não na china. o brasil às vezes esquece que o mundo -e suas estruturas de produção- é realmente global.
manter o país fechado -com reservas de mercado, na prática-, acaba nos levando a camisas-de-força que acabam nos tornando ainda menos competitivos. não há, por exemplo, nenhum fabricante nacional que agregue valor à vasta cadeia mundial de acessórios para o ipod. isso porque a coisa sempre foi imoralmente cara por aqui. lançar produtos no mercado mundial, sem base local, é’muito mais difícil e caro… tivéssemos uma mp380 genérica, para tudo o que vem de fora, de qualquer forma, estaríamos participando de muito mais sistemas de negócio no mundo todo.
está mais do que na hora de uma certa galera, na esplanada dos ministérios e na avenida paulista, acordar para o simples fato de que não podemos competir, no mundo atual, tendo por base substituição de exportações e verticalização. ou fábricas, das antigas. se o problema é gerar emprego na área de TICs, por exemplo, eu tenho uma notícia bem recente: a nova fábrica da intel, na china, que custou US$1.9B para montar e tem outro tanto de isenções do governo chinês vai gerar… 100 empregos.
a nova fábrica de memórias da toshiba foi para o japão e a da samsung para os estados unidos. por que? como não geram empregos mesmo, o componente salário é muito pequeno. o negócio pode ficar em qualquer lugar. qualquer lugar onde o mercado esteja ou a partir de onde seja competitivo produzir para o mundo todo. o brasil não se encaixa em nenhum dos dois critérios.
que tal, de verdade, o brasil enveredar por educação de qualidade, no longo prazo, combinado com criação de oportunidades e empreendedorismo de classe verdadeiramente mundial para participarmos na primeira classe da economia do conhecimento? nesta primeira classe, pouco importa o quem e onde da fabricação. importa [e exporta!] sim, a descoberta, a inovação, as marcas e o marketing, a [re]criação das cadeias de valor, enfim, tudo o que nós parecemos estar ignorando mesmo enquanto "legalizamos" a fronteira com o paraguai.
é uma pena. contra tanto que poderia estar sendo feito, e agora, tão pouca imaginação e ainda menos ação e coordenação. na minha opinião, a mp380 é uma pequena gota de solução sobre um grande incêndio de problemas.