the buck stops here!
Thursday, August 10th, 2006pense que você está numa empresa de software. processos ágeis de desenvolvimento [ao contrário dos métodos “antigos” e “pesados” que você conhecia -e era obrigado a usar] estão sendo instalados no lugar. e, alguma hora, é hora das “lideranças executivas” assumirem o papel de liderar o processo de introdução e institucionalização de alguma coisa que, por definição, precisa de muito menos “liderança” do que o passado [passou mesmo?…] do seu negócio costumava precisar… e aí? [processos ágeis de desenvolvimento de software são, claro, um mero exemplo; poderia ser uma nova forma de administrar o tempo, uma outra organização societária, uma nova estratégia de vendas… o que fosse].
brian marick esteve na agile 2006 e tá meio [muito] descontente com as tendências que, segundo ele, estão aparecendo na conferência [e no movimento “ágil”] de trazer as tais “lideranças executivas” pra “liderar” o processo… marick acha que trazer os “grandes homens” [teoria apoiada por alguns, segundo a qual as grandes mudanças sociais, econômicas, empresarias… são efetuadas por “grandes” homens… o que implica na necessidade de “heróis” como vetores essencias da mudança] é… “part of the domestication of Agile: the fitting of something potentially disruptive into the comfortable patterns of life“… parte do processo de “domesticação” dos processos ágeis, uma inovação potencialmente de ruptura, de forma a fazê-los caber na organização e estrutura corporativas. ainda segundo marick [no caso de software, pelo menos]… “We know how to do software better. It’s the executive’s job to support us in doing that-to clear obstacles out of the way of our practice-and not to lead us. We already know where to go. We know how to do our job. We need to be assisted, not led.”… nós sabemos como melhor fazer nosso trabalho. o trabalho [por outro lado dos executivos] é nos apoiar, criar as condições para que melhor façamos nosso trabalho… e não nos liderar. nós sabemos onde queremos ir. nós precisamos de apoio, e não de liderança.
as forças armadas americanas estão seriamente considerando um conjunto de mudanças destinadas a transferir o poder para as bordas, para as pontas. a idéia básica é a mesma de marick: ao invés de líderes, de heróis para nos dizer para onde estamos [ou deveríamos estar] indo, precisamos de pontos de apoio para suportar a carga, conosco e para nós, do que nós sabemos que tem que ser feito. ora pois, agile & mission oriented management no exército?… que coisa, hem?
a pergunta da hora é: sabemos mesmo o que tem que ser feito? quantos de nós, em uma instituição de 1.000 pessoas, sabem e estão em condições de exercer seus saberes, direitos e deveres, correndo os riscos que podem [veja bem, podem] nos levar aos resultados que, por um tempo, serão nosso nirvana [empresarial e, quiçá, pessoal]? é muito fácil, sob várias óticas, reclamar que não há espaço na instituição, que os gerentes tolhem nosso desenvolvimento profissional [e pessoal], que vendas não vende o que deveria estar vendendo, que a gestão não sabe pra onde o negócio está indo. é muito mais complexo, no entanto, participar integralmente do ciclo de vida da instituição, se capacitando continuamente para os processos inevitáveis de evolução insttiucional [uma boa parte dos quais é forçado pelo mercado!] e assumindo seus pontos de vista e suas diferenças de ponto de vista em relação ao que o resto da instituição pensa. a ponto, claro, de mudar o que ela pensa… e faz.
durante algum tempo, num passado distante, fui assessor da secretaria de política de informático do ministério de ciência e tecnologia. o secretário era ivan moura campos. na época, tanto quanto hoje, altos executivos do governo federal tinham por mania de falar do governo na terceira pessoa… frases típicas: “nós, aqui, defendemos x, y, z… o governo tem outras prioridades”… ditas por indivíduos que eram institucionalmente responsáveis por x, y, z e mais algumas variáveis. ivan tinha uma política [e aprendi com ele] resumida por the buck stops here. harry truman, presidente dos eua, tinha a inscrição sobre sua mesa na casa branca e o significado era [e é] inequívoco: truman não transferia para ninguém as responsabilidades sobre forma, métodos e processos com os quais os eua eram administrados durante sua gestão. nem ivan. nem eu, daí por diante. nem você, de hoje em diante. seja lá o que estiver rolando na sua periferia, se você está sendo verdadeiro no que faz, tudo é problema seu. não há nenhuma possibilidade de alguém -seja lá quem for, ou em que nível estiver-, em alguma empresa, falar sobre seu local de trabalho, sua empresa, na terceira pessoa [”isso não é comigo”…] sem estar fugindo dos problemas reais do seu negócio, seja por que for.
eu concordo com marick: transferir as responsabilidades de mudança para os “líderes” é deixar prá lá. é fugir do compromisso com as mudaças. é entregar o futuro aos heróis. e a história não é feita por eles: pode até ser escrita em função deles, face à complexidade de descrever processos de mudança, sempre muito complexos, em função de todo o fluxo de transações, no tempo, e às vezes por muito tempo, que as mudanças de verdade envolvem. mas não é só: se as bases precisam se ver como essenciais aos processos institucionais [e, conseqüentemente, no topo de tudo]… ao mesmo tempo, os líderes precisam se ver como servidores: eles são a base sobre a qual se sustentam os processos institucionais, principalmente os de mudança, de inovação, aqueles que representam maior risco, maior possibilidade de fracasso. ninguém precisa de líderes para tempos de bonança; precisamos de bases, de referência, de suporte para tempos de crise. aliás, hoje, em empresas de tecnologias de informação e comunicação, todos os tempos são de crise, dada a velocidade das mudanças, sobre seu negócio, forçadas pelo mercado… normalmente [graças!] fora de seu controle…
resumo da ópera: sua instituição está [sempre] mudando. você faz parte disso. a menos que não queira. se não quiser, prepare-se pra mudar mesmo assim: breve, o lugar em que você trabalhava terá mudado tanto que não mais espelhará o que você faz, ou iria querer fazer. logo… melhor fazer parte da mudança mesmo: desde o comecinho!


mudança na escala prevista é inovação em grande escala; o mercado inteiro corre o risco de mudar… perguntados sobre como melhor inovar, a resposta de 76% aponta colaboração e parceria como a melhor forma, mas apenas 52% dos CEOs acredita que suas empresas estão colaborando acima de um nível classificado como “moderado”. ou seja, o risco de muita coisa dar errado é muito grande e muitos de nós, que estamos na periferia desta confusão que começa a se aprontar no horizonte, vamos ser atingidos. melhor botar as barbas [e em muitos casos, o emprego] de molho…
