um avião da gol -fazendo o vôo 1907, 155 pessoas a bordo- se choca com um jato executivo em pleno ar, aparentemente em meio ao deserto verde da região de matupá, mato grosso. ninguém sabe direito o que aconteceu, mas o ministro da defesa faz questão de anunciar, quase imediatamente, que “deve ter sido um descuido da tripulação da gol“. como assim, camarada?…
aviões não saem por aí, no espaço aéreo, como querem e bem entendem: um conjunto de centros de controle de tráfego aéreo [em cada país] decide [e ordena] os caminhos por onde uma aeronave qualquer pode voar. as rotas aéreas são túneis virtuais, no espaço, dentro do quais os aviões “controlados” por tais sistemas [de informação, operados por e dependentes de seres humanos] são obrigados a manter uma distância regulamentar uns dos outros. assim, quando o leitor embarca de brasília a recife e o piloto diz que está voando na proa [direção] de bom jesus da lapa, ele o não faz porque quer, mas porque o túnel de brasilia a recife, naquela hora, para aquele vôo, passa por lá.
antes de dizer que “a tripulação da gol” deve ter feito alguma besteira, o senhor ministro deveria estar-se fazendo perguntas um pouco mais sensatas e complexas: 1] por que um jato executivo voava em rota de colisão com um avião comercial? 2] será que o controle de vôo botou os dois em tal situação [e aí o problema está na cozinha do ministro] ou 3] o controle de vôo nem sabia que o jato executivo estava lá [problemas na cozinha do ministro, de novo…] e… 4] não fez nada [ou não tinha condições de fazer] para tirá-lo de lá [olhaí as panelas do ministro no fogo de novo…].
não estou no negócio de defender a gol, mas é de uma leviandade sesquipedal um ministro de estado dar declarações sobre algo tão difícil de explicar antes mesmo de se ter respostas a perguntas tão básicas como as que qualquer passageiro freqüente [como eu] pode fazer sem ter um ministério da defesa inteiro para assessorá-lo. muito menos estou dizendo que o controle de vôo tem culpa no cartório; só questiono o diagnóstico -imediato- do senhor ministro sobre algo não trivial como o que acaba de acontecer.
o ecossistema de aviação de qualquer país é um sistema de informação; a qualquer momento, pode haver centenas de aviões no ar, transportando dezenas de milhares de vidas [veja o tamanho do problema, nos eua, aqui]. a segurança destas pessoas depende, ainda [enquanto um sistema anti-colisão, instalado em todos os aviões, não os torna conscientes da presença dos outros ao seu redor]. de um sistema de informação centralizado, cujo papel principal é garantir que toda e qualquer aeronave no seu espaço aéreo sabe porque está onde está, ao mesmo tempo em que assegura que um avião qualquer não vai, de uma hora pra outra, entrar no micro-espaço do outro. se isso acontecer, a chance de uma catástrofe é muito alta. e foi o que aconteceu com o gol 1907.
um dos casos recentes de colisão no ar, descoberta quase na hora pelo controle de tráfego aéreo e avisada aos pilotos, foi a que matou 59 pessoas quando um avião da DHL colidiu sobre o lake konstanz com um tupolev da bashkirian airlines: os dois pilotos mergulharam seus aviões para evitar o desastre e a igualdade das ações foi o fim de todos os passageiros e tripulantes. e o avião da DHL tinha o que de mais moderno havia em sistemas de alerta contra colisão, na época [como parece ser o caso do legacy e b737-800 envolvidos no acidente de ontem].
assumindo que nenhuma das duas tripulações envolvidas no acidente da gol estivesse deliberadamente tentando bater no outro avião, a responsabilidade do acidente está ligada à assimetria de informação entre os envolvidos: se os aviões e o controle responsável pela área soubessem, com a devida antecedência, do choque iminente, a comunicação entre as partes teria criado condições para que o desastre fosse evitado. uma coisa que o senhor ministro deveria estar começando a fazer, desde hoje à tarde, era garantir ao país que -seja lá o que tiver acontecido- haverá uma ampla investigação no sistema de informação [e controle] de tráfego aéreo, para dar certeza a todos os brasileiros que, ao entrarmos num avião, não estamos correndo os mesmos riscos do gol 1907, por culpa de responsabilidades do governo que deveriam funcionar a 100% de eficácia e eficiência, mas não estão assim tão bem das pernas.
tomara que não haja nada errado com o controle de vôo. mas, como o governo não tem toda esta tradição de investigar [seja lá o que for] a sério e profundamente -apesar de todas as declarações em contrário-, meu medo de avião aumentará muito neste domingo, quando terei que pegar logo três, para ir de recife a navegantes. que tudo dê certo, nem que seja por acaso… se não houver nenhum post aqui semana que vem, procurem o ministério da defesa para reclamar…