rolling stone: The Death of High Fidelity

há vinte e cinco anos, meu sonho de consumo era um toca-discos pink triangle… um amplificador naim e um par de caixas de som bowers & wilkins. todos ingleses. afinal, segundo os próprios, eles são o único povo, no mundo, a entender, apreciar e construir sistemas de som realmente de "alta fidelidade". a idéia, na época, era ouvir "full range", 20Hz-20KHz, combinado com "full amplitude". todas as freqüências em todos os volumes. os amplificadores de primeira linha só tinham o controle de volume, nada mais. era de se supor que quem havia gravado e impresso o disco tinha feito seu trabalho direito e o problema do sistema de som era "só" reproduzir a perfeição. e a combinação pink triangle + naim + b&w era a aspiração da classe média. nem custava uma fortuna [muito grande] e tampouco soava como as caixas de som de plástico dos computadores de hoje.

pois bem. ouça o que diz um dos mais renomados produtores do planeta sobre o que estamos gravando e ouvindo hoje: "They make it loud to get [listeners’] attention… I think most of everything is mastered a little too loud: The industry decided that it’s a volume contest." este é o começo de uma longa reportagem da rolling stone americana sobre a tendência de comprimir tudo, em música, freqüências, volumes e tudo mais.

daniel levitin, professor de música e neurociência da McGill University diz que"The excitement in music comes from variation in rhythm, timbre, pitch and loudness… If you hold one of those constant, it can seem monotonous." eu e vocês já ouvimos tudo isso milhões de vezes, boa parte delas graças à compressão proporcionada por MP3 e tocada por dispositivos que não conseguem reproduzir nem metade do que teria sido gravado nos estúdios, ainda por cima quando se ouve em fones que não conseguem reproduzir nem uma taboca rachada de percussão do interior do nordeste. muito democrático, tudo. mais gente, com mais música, em mais lugares. todos somos a favor.

altovolts.jpgmas é bom estar consciente de que há um outro universo, onde as coisas soam muito diferentes, muito mais sofisticadas, como se fossem um paraíso acima do caos dos sons na terra. e não é -nem precisa- ser coisa de milionário não: meu próximo amplificador de muito alta fidelidade, à válvula, vai vir da periferia do recife, onde neilton, engenheiro-inventor e guitarrista da devotos vai produzir, em escala artesanal, as máquinas que vão tocar o som de muita gente. o meu vai ficar aberto, na sala: mistura de máquina de som e objeto de design e decoração. feito aqui, quase em casa. e sintonizável pra meus ouvidos. e, por acaso, ajustado pra tocar em meu muito antigo, mas ainda excepcional, par de caixas b&w…

6 Responses to “rolling stone: The Death of High Fidelity”

  1. Daniel Moura Says:

    Silvio,

    Infelizmente isso é mais uma consequencia da ação negativa, duradoura e quase invevitável dos meios massivos de comunição e industriais. A mente do povo brasileiro é impregnada de noções distorcidas há gerações. Eu sempre me incomodei com esta falta de noção generalizada com relação à fidelidade sonora.
    É comum eu observar em algum canto um aparelho de som de 15000W PMPO (5W RMS) [crítica à industria] tocando música [?] a uma distorção harmonica total (THD) de 10% a título de som “ambiente”, resultando em agonizantes 90dB. Sem falar naquele “somzão” automotivo sempre com uma curva de equalização em forma de cuia (côncava), cheio de pancadas e “tuits” [o famoso tunts-tunts].
    No lado da produção musical, temos verdadeiras leis inquestionáveis. Tomemos como exemplo a pós-produção de um disco. Nunca vi niguém [de produção musical] questionar a compressão de amplitude (normalização), que muitas vezes é feita em comparação a discos comerciais aleatórios, para que fique com o mesmo “peso”. Se o cara não faz assim, é amador.

  2. Geber Ramalho Says:

    oi silvio

    eu concordo plenamente com as criticas sobre excesso de compressao, falta de nitidez, excesso de volume (db spl), etc., mas, nao se pode exagerar no romantismo das “velhas tecnologias”. como o artigo citado as vezes sugere “”With all the technical innovation, music sounds worse” ou como sua futura compra de amplificador deixa o leitor entender (sei que nao é isso. ha n boas razoes para se comprar um). este romatismo é recorrent. quem diz que prefere ouvir vinil ao inves de cd,… nao sabe nem o que é uma relacao sinal-ruido. pasme, ate mesmo os sons de valvula podem ser simulados digitalmente hoje.

    o problema é sempre e mais uma vez o mesmo: o fator humano. é verdade que houve democratizacao (via mp3, que lembro é compressao com perdas) da audiencia em um nivel de qualidade um pouco menor que o velho wave ou assemelhados, mas, sobretudo, houve tambem democratizacao do outro lado do muro: os “engenheiros de som”. o fato de usar um pro tools, nao tem (ou nao deveria ter), como o artigo sugere, influencia na qualidade da mixagem final. tudo depende do ouvido e da experiencia do engenheiro de som (e de outros equipamentos como os velhos e bons microfones). o que acontece é que agora é muito mais facil montar um estudio na garagem e todo mundo acha que é facil ser engenheiro de som (recording engineering, como se diz nos usa). falta formacao, falta cultura, e, talvez, falte bom gosto (incluindo aí o do produtor, claro e sobretudo). isto sem falar em uma eventual pressa no processo de producao fruto de pressao de mercado (nao acredito muito nesta ultima tese. prefiro incompetencia à conspiracao).

    “no meu tempo”, studio era caro e engenharia de som era quase uma mafia. para eu estagiar na polygram tive de ter um ajudinha de uma certa prima ;-).

    contraditoriamente, dependendo do que vc houve, vai ficar surpreso com a melhoria de qualidade das gravacoes. o negocio é que, mais uma vez, boa gravacao está associada à boa musica, e vice-versa. porcaria é ruim no conteudo e na gravacao ;-) por exemplo, dá uma ouvida nas faixas 1, 4, 8 ou 10 (gravadas nos usa, alias) do disco Duos II da cantora Luciana Souza, acompanhada do (extraterrestre, monstro, ou qualquer definicao exagerada) violonista Romero Lubambo . o conteudo é fantastico (faz uma semana que só escuto isto, pra comecar a entender ;-) e a qualidade da gravacao, primorosa. o disco está disponivel pra download na amazon por US$ 7,99 ou no itunes por US$ 9,99. eu comprei na livraria cultura por R$ 32,00 - mais caro, mas com melhor qualidade e com o encarte (alias, por que diabos o ainda nao avancamos para um formato de meta dados decente que inclua, em um disco, o seu encarte alem das suas musicas em mp3??).

  3. Geber Ramalho Says:

    desculpe os varios typos (incluindo ouve*)

  4. Marco Ribeiro Says:

    Caro Sílvio,

    li esse texto e realmente acho curioso: temos muito mais tecnologia em muitos aspectos. Por outro lado, grande número de pessoas - e falo de gente que gosta e entende do assunto - passa horas ouvindo som em caixinhas de i-pod e fones de ouvido. É um tanto paradoxal…

    Eu comprei esses dias um aplificador antigo, caixa de madeira etc. Tinha um logo estranho de Hi-Fi Association… O som é sensacional e, veja bem, custou apenas R$ 30 reais. Talvez, expandindo o assunto, exista uma geração inteira que nunca ouviu um som Hi-Fi, por exemplo. E fico lembrando que antigamente conseguir um disco era uma coisa tão problemática, não é mesmo?

    bem, é isso… viva o som Hi-Fi…
    abrazzos!

  5. André Says:

    Sílvio, mas também temos de pensar que aos poucos temos mais aparelhos com mais armazenamento e bandas maiores p. trafegar dados. Basta ver o secto de pessoas que trocam música em FLAC e outros formatos ou pessoas que usam um micro como media center mas ligados em receivers e outros aparelhos maiores. Acho que aos poucos o hi-fi também migra pras tecnologias, mas talvez de um jeito menos perceptível ao mundo que fica fascinado por iPods e afins (e não reclamo do iPod, muito pelo contrário).
    abraços

  6. Edu Camargo Says:

    Gostei da pessoa que mencionou o ‘FLAC’. Eu particularmente admiro muito este formato e ao que tudo indica, sua natureza permitirá o formato de crescer. “Natureza”? Sim, é um formato livre de patentes, ao contrário do MP3, ou seja, não é preciso lissença para distribuir conteúdo em FLAC, seja na forma de comercializar algum material, ou de implementar a linguagem em aparelhos. Já existem nos Estados Unidos sistemas de som que permitem ao usuário levar tal fidelidade para além dos computadores. Quem puder dá uma visitada no www.xiph.org. Muito vão saber sobre FLAC, e outros formatos livres de patentes que este pessoal desenvolveu. Aliás, o formato portátil ogg vorbis, é em termos de qualidade muito melhor do que o aclamado AAC. Principalmente para quem deseja lidar com streamming, este formato oferece uma resposta bem mais interessante quando se trata de largura de banda reduzida. No site mencionado existem testes de comparação. Você passa a não entender porque o MP3 é popular.

    Recentemente comprei um álbum em FLAC. É o álbum “Long Road Out of Eden” do Eagles. Eles estão trabalhando de forma independente agora. E tudo o que posso dizer é que tudo o que estes caras fazem tem muita vida. E este álbum na minha opinião é diferente de muita coisa a que estamos acostumados nos dias de hoje. Quem tiver a possibilidade dá uma olhada, vale muito a pena. É também uma forma de descobrir o que ainda se faz de bom e a rádio não divulga, porque o Deus Dinheiro é mais soberano que tudo. Viva o alternativo!

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