edge: “What have you changed your mind about? Why?”
EDGE, que tradicionalmente faz na noite de ano sua “pergunta do ano”, resolveu olhar pra trás e perguntar sobre 2007: no ano passado, sobre o que você mudou de idéia? e por quê?
pensando bem, trata-se de uma mega pergunta. humanos não mudam [muito] de idéia [sobre muitas coisas]. a maioria de nós se mantém firmemente agarrada aos preconceitos e falsas teorias [e pior, dados fuleiros] que nos [enganarão e] acompanharão até à morte. seria menos mal se fosse só a morte de cada um: não mudar de idéia, quando se lidera algo [ou quando se é ouvido por muita gente], sempre significa sofrimento adicional pra muitos. em muitos, muitos casos, quer dizer a destruição de empresas e empregos, que de outra forma [com seus donos e ceos mudando de opinião] estariam por aí, boazinhas da silva. isso quando não se deixa sociedades inteiras no lixo por muitos anos ou décadas. a lata de lixo da história está lotada dos “pensadores de idéias fixas”.
mas idéias são, depois de um certo ponto, quando se tornam fixas, fixações. é aí que emburrecem o dono e seus seguidores e, ao invés de servirem a seu propósito inicial, de mudar o mundo, são vetores para matar o debate, conter o desenvolvimento, tolher mentes e espíritos. e pra conduzir idiotas a matar gente, sem falar no uso de textos milenares fora de contexto, como se fossem notícia de ontem, e como se nosso entendimento do mundo fosse o mesmo desde a idade média. ou antes. edge é o contrário disso. precisamos muito de edges mundo afora. e tá faltando um deles no brasil.
enquanto não aparece um, vá ver o original. para a pergunta e o reasoning ao redor dela…
When thinking changes your mind, that’s philosophy. When God changes your mind, that’s faith. When facts change your mind, that’s science. WHAT HAVE YOU CHANGED YOUR MIND ABOUT? WHY? Science is based on evidence. What happens when the data change? How have scientific findings or arguments changed your mind?
algumas das respostas que constam do site são assinadas por tim o’reilly, que mudou sua idéia sobre social software [que ele achava que não ia rolar], james geary, que passou a achar que neuroeconomia realmente explica muita coisa no mercado, e brian eno, que mudou de idéia sobre revoluções e passou a acreditar em evolução. segundo ele…
Maoism, or my disappointment with it, also changed my feelings about how politics should be done. I went from revolutionary to evolutionary. I no longer wanted to see radical change dictated from the top – even if that top claimed to be the bottom, the ‘voice of the people’. I lost faith in the idea that there were quick solutions, that everyone would simultaneously see the light and things would suddenly flip over into a wonderful new reality. I started to believe it was always going to be slow, messy, compromised, unglamorous, bureaucratic, endlessly negotiated – or else extremely dangerous, chaotic and capricious. In fact I’ve lost faith in the idea of ideological politics altogether: I want instead to see politics as the articulation and management of a changing society in a changing world, trying to do a half-decent job for as many people as possible, trying to set things up a little better for the future.
como se vê, um primor [de tão básico e óbvio] de análise de qualquer realidade social e política ao nosso redor, daqui até o casaquistão, passando pela finlândia e quênia. não adianta, como este blog bem quis alguns meses atrás, querer simplesmente se livrar de renan calheiros. renan é parte do sistema. e o sistema é uma medusa complexa, confusa e onipresente. e cheio de renans aqui e em todo lugar. tirante uma guerra geral contra o estado das coisas, feita por todos, nenhum messias irá nos salvar. esta foi uma das idéias das quais eu não desisti nos últimos dez anos.
e sobre o que eu mudei de idéia em 2007? muitas coisas. a principal delas? deixei de acreditar que as pessoas aprendem de qualquer jeito. mesmo as melhores pessoas, mais bem preparadas, nos melhores lugares, nos mercados mais competitivos, precisam dos desafios, questionamentos, metas e objetivos apropriados pra aprender sempre e [cada vez mais] rápido. senão ficam perdidas em questiúnculas do dia-a-dia e disputas de poderes que não existem ou se, não servem pra nada. isso não foi só uma mudança de idéia de minha parte, foi um longo aprendizado [de alguns anos] que fechou um ciclo em 2007.
na verdade, como muitos de vocês podem perceber de pronto, eu simplesmente havia deixado de acreditar, temporária [e incrivelmente] na segunda lei da termodinâmica, uma interpretação livre da qual é que todos os sistemas fechados, deixados por aí, sem a devida atenção, migram, paulatinamente, para o caos. bem feito pra mim. eu acreditava bem mais no que se costuma chamar de “natureza humana”. até 2007. estou de volta, agora, crendo nas leis gerais do universo. e procurando entender quais outras se aplicam, ipsis litteris, às coisas, pessoas, grupos, instituições, mercados e empresas ao meu redor. mudanças, portanto, à vista em 2008. de idéia. de idéias. também.
January 4th, 2008 at 11:25 am
Silvio,
Parabéns pelo post.. uma obra prima!!! adorei!!
Deixo a minha contribuíção sobre o que eu mudei de idéia no 2007, ajudado também por interessantes colocações suas aquí no blog e na coluna do G1, e outros tantos blogs que costumo ler: a idéia de privacidade mudou para as novas gerações, e é um fenómeno que talvez nós não entendamos direito.. os jóvens conectados de hoje (com o Orkut e outras redes sociais) estão muito mais adaptados a viver essa “conciencia” social formada pelas redes onde eles participam.. para eles parece ser mais natural que para nós.. e acho a partir disso, quando eles sejam os que conduzam a inovação, vamos ter novidades ainda impensadas..
Um abraço! mais uma vez.. parabéns.. o seu post merece!
January 6th, 2008 at 8:10 pm
Excelente a relação com a segunda lei da termodinamica.
January 8th, 2008 at 1:05 pm
Silvio, fiquei muito, muito feliz de ler o seu post, de conhecer o seu blog. Ainda pouquissima gente conhece o EDGE. Maravilha.
January 13th, 2008 at 10:34 pm
Aprendi a não confiar demais nas pessoas. Os motivos devem ser óbvios.