inovação [6]: sincronização
[este texto é parte de uma série; para ver o anterior, clique aqui].

inovar, nos ensina peter drucker, é mudar comportamentos. de pessoas, tanto como provedoras de serviços, processos e produtos quanto como consumidoras dos mesmos. não é porque eu [possivelmente dentro da minha empresa, como todos meus colaboradores apoiando] resolvo que alguma coisa deve mudar, e desta vez para este modo genial que nós criamos, que o mundo inteiro vai acreditar e fazer o mesmo. aliás, na maioria das vezes, nem mesmo uma pequena parte do mundo vai cair na nossa rede.
porque inovar é sincronizar. é compartilhar expectativas. é mudar o “meu” modo à medida em que, ao mesmo tempo [ou logo depois] meu cliente muda o “seu” modo. sincronizar, por sua vez, é entender que o sucesso está no mercado e por ele é definido e medido. o mercado é regido por uma lei fundamental, a da oferta e da procura, que tem o mesmo status, na vida real das compras e trocas, que as leis de newton e darwin para o universo e as coisas vivas. ignorar o mercado e suas leis é o mesmo que suicidar sua incipiente tentativa de inovação.
o que nos leva a refletir sobre as muitas coisas supostamente inovadoras que ficam “nas prateleiras”, só “esperando” que alguma empresa as produza [e o público, lá no distante e inescrutável mercado, compre]. no brasil, esta é uma síndrome que afeta principalmente o meio acadêmico, onde está mais de ¾ de toda a força trabalho de conhecimento do país. uma boa parte deste público vive na ilusão de que inovação são resultados técnicos, talvez protótipos de laboratório que, uma vez realizados e validados em artigos e experimentos na academia, estão prontos para o mercado. pense num descompasso… taí um.
pra começar, quando se olha a partir de um laboratório acadêmico, a empresa que “iria” levar sua inovação para o mercado tem que ser tratada como… mercado. da mesma forma que, pensando sobre inovação numa empresa, todo o resto dela [que eventualmente irá se envolver com nossa “idéia no mercado”] é parte do mercado, pelo menos no estágio inicial do processo. daí, o primeiro passo para se tentar alguma inovação, tanto a partir dos laboratórios da academia quanto dos “skunk works” de uma empresa qualquer, é sincronizar, no mesmo entendimento, todas as partes envolvidas no processo.
e isso gasta tempo e energia. você poderia até dizer “mas isso gasta tempo e energia!” será que não dá pra curto-circuitar todas as conversas e convencimentos e partir direto pra ação, pelo menos se eu já estou numa empresa? pode até ser que sim… mas deve ser levado em conta que o seu risco pessoal e o do projeto aumentarão significativamente se não houver um desenho –de negócio, no mercado- entendido por todos à sua volta. ou pelo menos por todos os que podem ajudar ou destruir sua iniciativa.
numa empresa, a maior parte das inovações vem de fora, lá do tal [e onipotente, para inovação] mercado. uma parte de seu time está [ou deveria estar] lá o tempo quase todo: são seus, digamos, vendedores. na maioria das empresas, os vendedores são uma galera assustada e neurótica, perseguida [e demitida] por metas [ou por não atingi-las], sem nenhum tempo “livre” para entender o mercado e os clientes, sem condições apropriadas para desenhar novos produtos, processos, experiências e serviços. inovação é design, e design é desenho, em bom português. que deveria ser a razão de viver de todo bom vendedor. ainda por cima porque, para inovar, toda sua empresa deveria estar centrada em vendas e todos seus colaboradores, da moça do cafezinho ao dono, deveriam estar vendendo o tempo todo.
vender é desenhar. vender é criar mercados. se seu time for mesmo de vendedores [e não de “tiradores de pedidos”, que são outra categoria] , entre eles haverá designers, desenhistas, gente capaz de apreender uma nova possibilidade, casá-la ao conhecimento existente no negócio [ou que pode ser criado ou trazido a ele], conceber um modelo de negócios [ou uma variação do existente] e, quando isso estiver minimamente “pronto”, tentar a parte mais difícil da sincronização: redesenhar o negócio [pelo menos em parte] para fazer com que o mercado e sua empresa se encontrem no novo produto ou serviço que é objeto da inovação.
aí é onde veremos, afinal, se seu negócio é inovador ou não. sei de muita discussão [e demissões] de excelentes vendedores [de verdade] porque… eles, digamos, criavam muito caso, insistindo em mudanças e se rebelando com o status quo, quando tudo estava bem, às mil maravilhas, segundo a opinião vigente no lugar. e mudar pra que, se tudo está bem? vender inovação não é um negócio trivial. ainda por cima, acreditem, é arriscado.
segundo a religião vigente em algumas empresas, vendedor tem mais é que ir pra rua e “tirar pedido”, não importa como. ótimo, isso paga as contas do fim do mês. mas cega a instituição: não perceber as novas oportunidades, as demandas implícitas nas relações com clientes atuais e prospectivos, as micro-mudanças de mercado que levarão à derrocada do nosso negócio é o primeiro e mais grave sinal de que não estamos conseguindo nos sincronizar com o mercado e suas oportunidades, e que nosso negócio, enfim, tem pouca chance de sobreviver.
mas –diria o gentil leitor, será que nesta história de inovação só se fala de mercado? sim. mercados são conversações. e vice-versa. inovação é conversação sincronizada. até mesmo porque as idéias só existem –quando sobrevivem, em mercados de entendimento e propagação. algumas delas, por muito tempo [e inclusive aqui] conseguiram, com algum sucesso, no mercado, convencer um grande número de pessoas da… inexistência do mercado!
felizmente para todos nós, o mercado –regido pela lei universal da oferta e procura, continua lá, vivinho da silva, prontinho e esperando que alguns, mais atentos e preparados do que outros, sincronizem o dentro e o fora de suas empresas [e laboratórios] para… inovar.
[pra entender {no mercado, sempre} o que é, na prática, sincronização, você ainda pode ler este texto aqui, sobre a nintendo de nossos dias.]

November 23rd, 2007 at 10:54 am
[…] ondas wrote an interesting post today!.Here’s a quick excerpt [este texto é parte de uma série; para ver o anterior, clique aqui]. [IMG ] inovar, nos ensina peter drucker, é mudar comportamentos. de pessoas, tanto como provedoras de serviços, processos e produtos quanto como consumidoras dos mesmos. não é porque eu [possivelmente dentro da minha empresa, como todos meus colaboradores apoiando] resolvo que alguma coisa deve mudar, e desta vez para este modo genial que nós criamos, que o mundo inteiro vai acreditar e fazer o mesmo. aliás, na maioria das v […]
November 24th, 2007 at 12:13 am
Infelizmente, parece que vivemos nas cavernas por essas bandas do Brasil.
Achar um sujeito com o titulo de empresário que realmente seja isso, ou que poderia ser considerado empreendedor é coisa rara no Nordeste.
Não existe nada mais dificil de se vender do que tecnologia.
E se é inovação, vixe maria!
Recentemente fui chamado para apagar um incêndio em uma empresa.
Mais de 10 filiais ligadas a uma central… nada de firewall, nada de anti-spyware, e nada de licenças para 500 maquinas!
Depois de 2 dias parada, essa empresa poderia ser considerada um cliente fácil!
Bem, depois de “desenhar” a solução correta e de mais baixo custo e com um baita beneficio, a empresa tirou a poeira do servidor e trocou a motherboard queimada do seu Dual Xeon de 2 cpus de 2GHz, e voltou a ser tudo como era antes… até o próximo incêndio (Eles deveriam ter um server com 4 CPUs Dual Core pra cima e 32GB de RAM).
November 24th, 2007 at 11:57 pm
“inovar, nos ensina peter drucker, é mudar comportamentos. de pessoas, tanto como provedoras de serviços, processos e produtos quanto como consumidoras dos mesmos.”
Quanto a isso não vamos tão bem em grande escala por aqui, pois não observamos o mercado e suas oportunidades e em certos casos não é dada a infra-estrutura e incentivo para que a inovação aconteça.
November 26th, 2007 at 8:40 am
Bom texto, a “inovação parceira” para mim é uma questão que coloco como importante, consiste em aliar os bons projetos acadêmicos com visões técnicas com as empresas e o bom empresário que tem a visão de mercado.
Hoje principalmente em pequenos centros é muito difícil aliar esta oportunidade por diversos motivos e o principal deles é o empresário com visão empreendedora.
Outra questão importante está em registrar, patentear a idéia inovadora mesmo que seja algo livre.
November 26th, 2007 at 9:14 am
A Apple, não foi fundada por um empresário, a Microsoft não foi fundada por um empresário, a Hewlett Packard não foi fundada por um empresário, Google não foi fundada por empresários, todas estas empresas iniciaram com capital intelectual, todas elas foram criadas por caras técnicos o suficientemente corajosos criar coisas novas e dar a cara a tapa.
Esta faltando uma onda de empresários que entendam o negocio do conhecimento, empresários tradicionais foram formados para entender o mundo industrial e não investem em inovação, eles investem em segurança para seu dinheiro e nisso por enquanto quase não tem como competir com títulos do governo.
Inovar é na minha visão criar ondas, achar soluções simples para problemas complexos e necessidades reais, fazer melhor do que tudo o que foi feito antes.
Acho que o que esta faltando é empreender mais, o pessoal técnico deixar de buscar emprego unicamente e começar a criar inovações sustentáveis, começar a criar negócios.
Abraços,
Juan.
November 29th, 2007 at 11:59 am
o que é “skunk work”?
September 30th, 2008 at 12:52 pm
[…] - Meira, Silvio. (2007). Inovação [6]: Sincronização. […]