inovação [5]: propósito

[este texto é parte de uma série; para ver o anterior, clique aqui].

em 2005, a booz, allen & hamilton fez uma pesquisa pra descobrir o QUE os GASTOS em inovação das MIL empresas que MAIS investem em pesquisa e desenvolvimento tinham a ver com seus resultados. a resposta, muito pouco surpreendente, é… NADA. em suma, segundo um artigo de Nikos Mourkogiannis, They found no significant correlation with any measures of corporate success. None. Not profits, not revenues, not growth or shareholder returns. In other words, the simple decision to invest in innovation is not enough. How you invest, and especially how innovation serves a larger Purpose, determines the value of your investment.

derramar recursos em pesquisa e desenvolvimento, ou "ciência e tecnologia", como se costuma dizer na periferia, seja no âmbito das empresas ou de países ou estados, resulta em… nada. ou muito pouco. e pouco valor. ampliando o foco, há quem comemore, no brasil, o maior número de papers publicados pelas universidades, onde residem 90% [ou mais] de todos os pesquisadores, como se paper fosse resultado. a aumentada relevância internacional da produção científica brasileira tem muito pouca importância na vida real dos negócios e na melhoria de sua competitividade. ao invés de festejar mais papers, deveríamos planejar e talvez até forçar a criação de uma AGENDA de inovação, orientada para a mudança do comportamento de produtores e consumidores de tecnologia, processos, produtos e modelos de negócio, no mercado, com ou sem papers e títulos acadêmicos a sustentá-los.

é claro que ninguém está a desmerecer o papel dos mecanismos de geração de conhecimento no avanço da humanidade. mas -desde sempre- os recursos para se fazer qualquer coisa são limitados, ainda mais por aqui. mourkogiannis, por essa e outras razões, defende a busca do PROPÓSITO no esforço de inovação, o que deveria ser feito no topo dos espaços mentais [conversações… veja o que este blog tem a dizer sobre o assunto aqui] classicamente considerados na inovação.

inovação envolve [simplificadamente] três entendimentos: das tecnologias [e processos, métodos…], dos consumidores [existentes ou potenciais] e da competição [idem]. mas combinar tecnologias inovadoras, descobrir universos de consumidores e enfrentar a competição pode resultar em… nada. se não houver propósito. masaru ibuka, ao fundar a Sony, tinha idéias muito claras sobre o propósito de sua futura companhia: “to establish a place of work where engineers can feel the joy of technological innovation, be aware of their mission to society and work to their heart’s content”. o propósito da sony, claro, é a descoberta… o que fez a companhia ter ganhos reais de 10% a.a. entre 1967 e 1999.

segundo mourkogiannis, os propósitos podem ser classificados em quatro categorias: descoberta [como na sony], altruísmo [como no wal-mart, preços baixos para todos], excelência [berkshire hathaway, de warren buffet, desde o princípio comprometido a construir a melhor rede de investimentos do planeta] e heroísmo [dos primórdios da ford, cujo propósito era democratizar o acesso ao automóvel].

ter propósito não significa, por si só, maior possibilidade de obter resultados. propósitos individuais ou apenas parcialmente compartilhados pela comunidade que se busca atingir [sua empresa, seus sócios fundadores ou, no caso de políticas públicas, todos os parceiros em todos os setores] pode inclusive aumentar a chance de fracasso de práticas [nas empresas] e políticas [no setor público] de inovação. o ponto de partida de qualquer processo, proposta ou política de inovação é combinar, com tantos quantos forem os possíveis atores, o que se quer atingir e fazê-lo de forma dinâmica, interativa e continuada. pois o mundo muda e muda muito rápido.

depois voltamos para o caso das empresas. falando -hoje- de propósito e de políticas de inovação no setor público, é preciso, quase que necessariamente combinar as quatro vertentes de mourkogiannis: o planejador [público] de inovação pública tem que estar dotado dos propósitos de heroísmo [para mudar o mundo ao seu redor], altruísmo [para estar pensando no bem comum], excelência [para fazer nada menos do que o melhor para sua comunidade] e descoberta [para promover verdadeiros avanços nas empresas e entidades sob seu cuidado].

por isso que o trabalho e difícil, pra não dizer quase impossível, pois tudo isso é para se ter e ser feito ao mesmo tempo. principalmente em lugares que estão quase perdendo as janelas da história como o brasil. no meu entender, é algo que só pode ser feito por alguém que se divirta, de maneira fundamental, com as dificuldades do encargo e que esteja [e seja] desprovido de qualquer tipo de preconceito contra quem ou o que quer que seja. o mesmo, por sinal, vale para quem quiser viver pensando em inovação nas empresas.

noutra hora, vamos discutir como PROPÓSITO pode ser uma alavanca essencial para seu negócio, ou start-up [ou vida pessoal] fazer sentido e ter uma chance bem maior de fazer sucesso. o que não tem nada a ver, por sinal, com fluxo de caixa e outras medidas cartesianas usadas nos negócios "comuns", que não inovam… e que não vão sobreviver.

[para ler o paper de nikos mourkogiannis na íntegra, pegue o .pdf aqui.]

6 Responses to “inovação [5]: propósito”

  1. Francisco Says:

    Sílvio,
    parabéns pela série. Está realmente muito boa!

  2. Eduardo Says:

    Silvio,
    e onde fica o propósito de empresas como yet2.com ou innocentive?

  3. Fabio Bonifacio Says:

    …muito bom este artigo, afinal os diversos resultados apresentados, nem sempre têm revelado a realidade do investimento necessário e adequado à Inovação.

    Na verdade, o sentido da inovação já estar atrelado ao conceito de planejamento e objetivos do negócio, e daí sim, vir a decidir como investir.

    Fabio Boonifacio
    Netbull Consultoria

  4. A CI brasileira veste a carapuça at Blog ExtraLibris Says:

    […] Da ótima série de posts de Silvio Meira sobre inovação: derramar recursos em pesquisa e desenvolvimento, ou “ciência e tecnologia”, como se costuma dizer na periferia, seja no âmbito das empresas ou de países ou estados, resulta em… nada. ou muito pouco. e pouco valor. ampliando o foco, há quem comemore, no brasil, o maior número de papers publicados pelas universidades, onde residem 90% [ou mais] de todos os pesquisadores, como se paper fosse resultado. a aumentada relevância internacional da produção científica brasileira tem muito pouca importância na vida real dos negócios e na melhoria de sua competitividade. ao invés de festejar mais papers, deveríamos planejar e talvez até forçar a criação de uma AGENDA de inovação, orientada para a mudança do comportamento de produtores e consumidores de tecnologia, processos, produtos e modelos de negócio, no mercado, com ou sem papers e títulos acadêmicos a sustentá-los. […]

  5. silvio meira: dia a dia, bit a bit Says:

    […] [este texto é parte de uma série; para ver o anterior, clique aqui]. […]

  6. Cleidson Says:

    Silvio, simplimente eu te amo! Você é d+
    até mais mestre!!!

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