inovação [3]: mudança
[este texto é parte de uma série; para ver o anterior, clique aqui].
o mundo não muda todo do mesmo jeito, nem sua -ou minha- instituição mudam quando querem e entendem que estão preparadas para tal. nós vivemos em rede e cada instituição tem seu tempo. raramente o tempo de cada um está no tempo do mercado. é às vezes necessário, para inovar, criar seu tempo, seu próprio tempo. o que significa, muitas vezes, convencer o mercado e a empresa de que o tempo é agora. mudar, no tempo do mercado, significa reescrever a rede do seu negócio. em tempo real. enquanto o mundo, lá fora, continua rodando…
a literatura de gestão corporativa está contaminada por uma mania de gestão de mudança, para a qual quase todo teórico de plantão tem sua versão. na prática, pouco do que se lê se aplica, ispsis litteris, a um negócio qualquer. e isto, claro, não é -e não poderia- ser novidade, pois é claramente impossível se ter uma teoria geral da mudança.
mas isso está longe de ser o pior: os manuais de mudança e os discursos de auto-ajuda corporativa e pessoal são a pior faceta das sucessivas ondas de mudança que os gurus -autores por trás das teorias e práticas de gestão- e os evangelistas impingem à sociedade e aos negócios. resultado de uma máquina de publicar e de consultoria que precisa, para sobreviver, de novidades [não necessariamente de inovação], estes discursos, dirigidos via de regra aos fracos de espírito, àqueles para os quais uma frase de efeito no birô dá a impressão de que estão fazendo tudo o que podem para mudar o mundo ao seu redor, não mudam nada e pioram, em muito, o ambiente… pois fazem parecer que tudo já está mudado.
a mudança real é quase suicida. quase sempre, quem realmente está tentando mudar alguma coisa sabe que, de todas as cabeças, a sua está a prêmio em primeiro lugar. por que? simples: se somos parte da estrutura atual e vetores de mudança, e se esta, afinal, pode acabar destruindo a rede de poder [e performance] que está funcionando agora, não há nada que garanta os lugares e poderes de quem, hoje, está liderando a mudança. muito ao contrário. é só olhar as conseqüências pessoais para os líderes da revolução francesa para entender o espectro de efeitos colaterais aos quais cada um -principalmente os líderes- dos envolvidos em processos de inovação está sujeito. por outro lado, se não somos parte do poder corrente, não só podemos ser evaporados pela oposição [que está no poder...] antes de atingirmos qualquer objetivo e, mesmo que consigamos, nada garante que não teremos gasto, para chegar lá, toda a nossa história e futuro na instituição.
muito se pode escrever sobre mudança… mas eu não sou um daqueles gurus de quem falei antes. logo, vou resumir aqui e agora minhas três regras básicas para os agentes de mudança. diga-se de passagem que o elemento essencial de um mudante é a combinação de coragem, desprendimento e energia. coragem para sair do lugar, energia para ir longe, se for preciso, ou perto [se as forças contrárias forem muito fortes] e desprendimento para entender [mesmo!] que o objetivo não é assumir o poder [ou uma coroa de louros] quando a mudança ocorrer. a vitória terá sido a mudança em si e talvez nada mais.
quais são, pois, as diretrizes que eu próprio uso para mudar e induzir mudanças?
- faça de conta que você é o líder, mesmo que não seja; se calhar, é você mesmo. se não, você há de saber logo, logo…
- não tema as conseqüências; no melhor dos casos, do outro lado da mudança, você será relevante, ainda; no pior, você está fora do jogo; se a instituição mudou e você não cabe mais no figurino, ainda assim sua mudança é um sucesso e as portas do futuro lhe estão abertas, exatamente por causa de sua saída do negócio atual, em muitos outros. se nada mudou, ou até piorou [como reação ao processo que você e outros iniciaram], não era lá mesmo que você iria querer passar muito tempo. seu dna e o dna daquele negócio não combinam mesmo…
- não tente mudar, ou continuar mudando, só porque você [e quem está ao seu redor] acha bonito. entenda o negócio, as demandas, o mercado, os porquês… e proponha e lidere as mudanças no que, onde, como e quando precisar ser mudado.pense nos limites naturais do que você está propondo e tenha pelo menos uma idéia dos riscos e recursos necessários. mudar para o caos não é solução para nada [a menos que você conheça a saísda, a priori]. e tem mais: fora do contexto, ou pior, da necessidade, mudar por mudar pode ser burrice, pura e simples.
além disso, é bom ter sorte, muita sorte. o que não vem por acaso: lembre-se de que só os muito bem preparados têm, sistematicamente, sorte. boa sorte.
October 24th, 2007 at 5:45 pm
Silvio,
eu ainda sugiro uma 4a. diretriz à sua lista acima:
4 – Alie-se – e alinhe-se. Em tempos de mudança, é sempre útil ter ao seu lado pessoas com quem se pode contar. Até para nos fazer refletir sobre os cenários de mudança. E é útil lembrar que o alinhamento não nasce da unanimidade muda, mas do calor do debate.
Abraços, Claudia.
October 25th, 2007 at 9:33 am
Interessante esse post sobre mudança, me vi em algumas coisas que tu falou, principalmente que a mudança não tem o objetivo de tomar o poder, isso já aconteceu comigo, perdi o foco da mudança e eu quebrei a cara. Outra coisa interessante foi essa quarta diretriz proposta por nossa amiga Claudia. Se naquela oportunidade que quebrei a cara, eu tivesse ao meu lado pessoas que podesse contar, opniões sinceras e verdadeiras, com certeza o fato teria outro desfecho.
Mas vivendo e aprendendo, a vida antes de tudo, é uma grande experiência.
Forte abraço.
October 25th, 2007 at 9:50 am
As mudanças são comuns em nossas vidas pois o mundo dá voltas, mas qual seria o sentido de mudar? O video http://www.miniature-earth.com/index.html nos provoca reflexões do mundo que gostaríamos de mudar.
E nas empresas? ” … Uma mudança radical assim só é possível para empresas de visão e que tenham sua estrutura montada em formato de um parque de diversões, que está sempre pronto a viajar e a mudar sua configuração e seus produtos dependendo do mercado nas diferentes cidades por onde peregrina. Esse monta-desmonta, seja ele conceitual, de negócio ou de produto, é uma habilidade que toda empresa precisa procurar ter nos dias de hoje.” http://www.mariopersona.com.br/entrevista_jornal_exclusivo.html Isso é o que diz um destes gurus, mas na prática, precisamos desenvolver a capacidade de mudar dentro de nós mesmos e aceitarmos desafios diferentes, caso contrário, ficaremos frustrados.
October 25th, 2007 at 4:24 pm
estou adorando a série.
beijos, d.
October 25th, 2007 at 5:06 pm
não apenas mudar por mudar, mas mudar com intenções não muito claras e objetivas também podem ser uma burrice muito grande.
transparência na mudança acredito ser um trunfo no momento de conseguir mais “voluntários” favoráveis à mudança. com as cartas na mesa, mais pessoas se interessam em jogar. com as cartas na manga, todos são jogadores de poker.
October 28th, 2007 at 11:16 am
Perceber a necessidade de mudança, ter coragem para mudar, mudar para evoluir. E muita força para brigar contra o medo.
Essa parece a receita de quem evoluiu durante os tempos, nem foram os fortes nem foram os mais inteligentes e sim os mais adaptáveis.
October 30th, 2007 at 1:29 pm
“Sorte é um quase-sinônimo de destino, com a principal diferença de admitir uma divisão entre “boa sorte” e “má sorte” (quando se fala em destino, essa divisão é inadmissível). No entanto, imaginar que existe uma sorte é algo que exige admitir a idéia de predestinação, ou seja, de que algo ocorreu por fatalidade, programação ou desígnio imposto por forças maiores, sejam estas cosmogônicas, metafísicas ou teológicas.” http://pt.wikipedia.org/wiki/Sorte
Muitas pessoas que acreditam ter sorte acabam ajudando sua empresa, mas, “Luck favors the prepared mind.” http://www.cs.virginia.edu/~robins/YouAndYourResearch.html
somente as pessoas preparadas terão tal sorte.
“It’s better to be lucky than smart.” “You make your own luck in life.” “Some folks are just born lucky.” In an environment marked by rising tensions and diminished expectations, most of us could use a little luck — at our companies, in our careers, with our investments. Richard Wiseman thinks that he can help you find some. http://www.fastcompany.com/magazine/72/realitycheck.html
Na integra: http://www.fliptophead.com/blog/main/lucky.htm
November 3rd, 2007 at 7:09 pm
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