inovação [1]: ideal inconsistente
[nota do autor: já faz um tempo que estou tentando escrever um pequeno manual de idéias, propostas e ações de/para/sobre inovação em ambientes corporativos, e o danado é que minhas mútliplas ocupações não estão deixando o livro progredir. resolvi, então, blogar partes do texto, até pra testar se fazem sentido ou não.
o texto é de jeans, camiseta e havaianas, em oposição aos documentos sérios e acadêmicos, de paletó e gravata já no mercado. e não é de auto ajuda ou prescrições, mas de dúvidas e suposições, quase o tempo inteiro. boa parte do que vai aparecer aqui é o que vem sendo discutido no c.e.s.a.r e em outros ambientes onde o c.e.s.a.r e parceiros estão tratando de inovação e articulando ambientes para o desenvolvimento de trabalho inovador. vamos ver se faz sentido... boa leitura...]

inovação é um ideal inconsistente: os discursos que servem de suporte a processos de inovação, na maior parte das instituições -e feitos por boa parte dos autores- são descrições articuladas de casos de sucesso e suas análises. também se usa muito, para exemplificar, os cases de instituições inteiras como modelos de estratégias e processos de inovação a serem seguidos.
olhados mais de perto, nem os casos individuais nem os cases institucionais nos dão, na quase totalidade das vezes, uma direção segura a seguir. por quê? porque cada instituição é diferente, é um caso à parte; mesmo dentro de uma mesma organização mundial, uma inovação que tenha dado certo no japão não dará necessariamente certo no brasil.
apesar disso, livros e mais livros de [quase] auto ajuda, descrevendo as melhores práticas, são consumidos avidamente por quem tenta construir, instalar e manter processos inovadores nas empresas, com resultados vários e, dificilmente, replicados a partir de grandes sucessos descritos na literatura. pois uma coisa é olhar para a inovação na microsoft ou google, companhias que dispendem vários bilhões de dólares por ano em inovação, e outra é pensar numa pequena companhia de software de 50 pessoas e ver, aqui, como inovar nos processos produtivos e nos produtos que o negócio desenvolve. ainda por cima, dentro dos limites próprios do negócio.
o ideal inconsistente da inovação é a criação e manutenção de um ambiente de insatisfação institucionalizada com o status quo de um negócio qualquer. não se quer dizer com isso que inovar é criar insatisfeitos, gente que estará de mau humor com o trabalho sendo realizado no lugar, por conseguinte disposta a abandoná-lo na primeira oportunidade. muito pelo contrário. a insatisfação pode -e deve- ser uma busca alegre de oportunidades de mudança, promovida e recompensada pela organização, que estará sempre refletindo, em termos pessoais e estratégicos, que há mudanças que podem ser realizadas, o tempo todo, no atual estado de coisas.
inovação é sempre impermanente, imperfeita, incompleta. e aqui é onde as pessoas e sua tendência a querer estabiliade, no médio e longo prazo, mais sofrem em instituições inovadoras ou em instituições que estão começando a levar inovação a sério. pois normalmente se pensa, quando se sai de um ponto de partida p, em um processo de inovação qualquer, que haverá um destino final f que, quando atingido, dar-se-á a mudança por completa. mas não.
inovação é impermanente. seu resultado é temporal e não leva muito tempo até que o resultado de um processo se desvaneça, deixando uma tênue lembrança dos resultados alcançados a tanto custo. inovação ocorre em ciclos. ao se caminhar de p até f, normalmente à custa de sacrifícios institucionais e individuais dos quais nos lembraremos por algum tempo, ao invés de se chegar num ponto final, f, chega-se num novo ponto de partida, o mesmo f. pois, à medida que estamos mudando, o mundo está mudando ao nosso redor e pode muito bem ser que, mesmo que nós tenhamos feito revoluções na nossa mudança, o novo estado institucional para onde estávamos indo já seja obsoleto na metade do nosso processo, em função da entrada de novos -e muito mais eficientes ou eficazes, ou os dois- concorrentes no nosso mercado. ou porque o nosso mercado foi redefinido. ou porque a redefinição foi tamanha que ele -o tal nosso mercado- desapareceu.
inovação é imperfeita. toda inovação é parte de um processo de insatisfação que guarda as sementes de sua própria renovação. quando tratamos de processos institucionais, isso é ainda mais verdade: mudar, em uma organização, não é apenas o processo de transitar entre uma estrutura, velha, e outra, nova. é criar as bases para que a mudança seja permanente, entre formas de ação e organização [que já foram muito] boas e outras [que pretendem ser ainda] melhores. daí porque, ao invés de tantarmos alcançar a execução perfeita do conhecido, estamos à busca -em processos inovadores- da execução imperfeita do desconhecido. a interlocução entre os estados institucionais de saber-se imperfeito e entender-se temporal é uma das conjuções motrizes dos processo inovadores. mas não é só.
inovação é incompleta. não estamos atrás de mudar tudo e todos ao mesmo tempo. partindo do princípio dual de que a perfeição, no nosso caso, é inatingível e que tudo se desvanece sob o impacto das mudanças efetuadas aqui e algures, adicionamos à equação a iimcompletude dos processos de inovação. vai estar sempre faltando considerar alguma faceta, algum aspecto externo, algum modelo de mudança nos cenários de nosso interesse.
impermanência, imperfeição e incompletude são características básicas, pensando bem, de todas as coisas. vivas ou não. principalmente das vivas. uma organização qualquer é uma estrutura viva, criada e “habitada” por pessoas, que sofrem, pela sua própria natureza, destas três limitações. quanto à consistência… melhor deixar prá lá. afinal de contas, uma das belezas do mundo real é que sua consistência, no máximo, é só aqui e ali. e vez por outra.
October 15th, 2007 at 7:06 pm
Será que inovar neste sentido não seria apenas produzir melhores ferramentas para inovar?
E as realizações que conseguimos, agora que temos mais e melhores processos, informação ilimitada, conectividade global, mais ferramentas, mais tudo… Será que se inovaram?
Ou será que continuamos apenas realizando uma corrida de ratos pelo mesmo velho queijo podre do capitalismo global inconsequente e de curto prazo?
À meditar…
http://valueclouds.blogspot.com/2007/10/inovao-de-know-how-x-inovaao-de.html
October 15th, 2007 at 8:51 pm
Belle Silvio! “o texto é de jeans, camiseta e havaianas” (…) “mas de dúvidas e suposições”, isso já é uma forma inovadora de abordar o tema inovação.
Eu até compararia ‘inovação’ com a mecância quântica, por causa de sua impresivibilidade ( para continuar os IM’s)
Afinal, se algo é realmente inovador, também pode ser imprevisivel. Acho que a imprevisibilidade deveria ser considerada na tríade que vc apresentou.
O que vc acha?
October 16th, 2007 at 11:06 am
O maior problema das empresas “inovadoras” em que já trabalhei é o fato de elas se fecharem em um processo místico-inovador (“de agora em diante vamos inovar!”) e depois se abrirem para o mundo com uma solução qualquer que pode fazer algum sentido dentro da instituição, mas em geral é uma imbecilidade completa (ou incompleta, às vezes) no “mundo exterior”. Ao meu ver, inovação é algo que vem de fora das paredes da empresa, é processada de alguma forma lá dentro e depois devolvida à sociedade na forma de algo que não precisa ser completamente diferente da “matéria-prima”, mas com alguma melhoria (algum refinamento).
já sugeri para algumas pessoas que conheço (que lidam com inovação) tentarem resolver *problemas reais* ao invés de bolar “produtos inovadores”. Fazer perguntas é um bom começo…
October 16th, 2007 at 1:18 pm
O último número da revista Época Negócios apresenta uma excelente reportagem sobre esse tema!
October 16th, 2007 at 1:24 pm
“inovação é um ideal inconsistente.” Para muitas pessoas pode ser assim, eu também acho que é, mas inovar como sinônimo de introduzir uma coisa nova sempre vai ter quem goste e quem tem medo desta mudança. Assim, o ideal pode ter diferentes interpretações dependendo de quem está tentanto inovar, de suas experiências anteriores e da aceitação da sociedade bem como do mercado.
Podemos pensar portanto, que a inovação é uma constante busca pelo novo?
October 16th, 2007 at 3:28 pm
você teria aí algum texto sobre como fazer a “criação e manutenção de um ambiente de insatisfação institucionalizada com o status quo”, já que uma “organização qualquer é uma estrutura viva, criada e ‘habitada’ por pessoas, que sofrem, pela sua própria natureza, destas três limitações [imperfeição, imcompletude e impermanência]“?
não digo nem fórmulas, nem ferramentas, mas somente questionamentos informais como esse, seria ótimo ouvir [ler] sobre isso de você.
October 20th, 2007 at 9:46 am
Aposto na experimentação para a formação de uma organização inovadora através do dialogo constante entre as diferenças. Não apenas as internas da Instituição, mas a interação direta entre o Setor privado e a Sociedade – onde os problemas ainda não estão dissolvidos e confusos de entendê-los – em que os problemas são extremos, comunidades de Baixos Indicies de desenvolvimento Humano, eis o dialogo que poderia ser experimentados pelas instituições de inovação. Tem um livro que breve iniciarei a leitura;
A Riqueza na Base da Pirâmide – Como Erradicar a Pobreza com o Lucro (Prahalad, C. K.)
“organização qualquer é uma estrutura viva, criada e ‘habitada’ por pessoas que olham e INTERAGEM para se integrar com o MUNDO”
October 21st, 2007 at 8:10 pm
“o movimento da cultura, da economia, da política… qualquer movimento, não depende que quem está na inércia cultural… que só “interioriza” os valores e se acomoda, depende das pessoas criativas que conseguem imaginar uma realidade diferente, formas de fazer as coisas diferentes. MAS as pessoas que estão na inércia também são importantes, elas garantem que as mudanças não ocorram tão rapidamente de forma a segregar pessoas que estão em tempos diferentes… E assim a gente vive em grupo, convive com gerações diferentes, torna possível a comunicação por meio de valores e de uma socialização semelhante.”
Acho que o que falta são mais pessoas criativas, para equilibrar a equação. pergunto: como formá-las — ou não atrapalhar a sua formação?
October 22nd, 2007 at 8:31 am
Silvio, gostei do texto, parabéns! Com certeza no seu livro você trata de um assunto importante e que senti falta nesse trecho. CAPACIDADE DE REALIZAÇÃO.
Insatisfação e Criatividade não levam a nada sem a capacidade de empreender na mudança. Acredito que temos muitas pessoas criativas, ao contrário do Fernando não aco que esse é o GRANDE problema, mas também temos muitas pessoas apáticas. Como formar pessoas que realizam seus sonhos e projetos, atrelados a benefícios em longo prazo que não devem mais vir apenas para elas, mas para o grupo, para a sociedade?
October 22nd, 2007 at 9:56 am
Nos últimos 25 anos, nosso país tem aplicado em Ciência & Tecnologia recursos a uma taxa aproximadamente constante de 0,5 a 0,6% do seu Produto Interno Bruto; a média dos países mais desenvolvidos investe 2,5% do seu PIB. Como a população brasileira cresceu nesse período, os investimentos ficaram cada vez menores por habitante: hoje, são US$ 30 por habitante, contra cerca de US$ 300 por habitante nos países de maior desenvolvimento.
Apesar de ser a 8ª economia do mundo, o Brasil ocupa o 30º lugar na ciência mundial. Temos aproximadamente 90 mil cientistas ativos, número muito pequeno quando comparado com o milhão de americanos, os 600 mil japoneses e os 300 mil alemães, que produzem C&T em seus países.
Nosso ensino de primeiro e de segundo graus quase não motiva para as carreiras voltadas à exploração científica. No ensino superior, as instituições públicas, com escassez de recursos e sem ambiente propício, têm baixíssima safra científica, que ainda assim não se alinha à nossa realidade. A grande maioria das outras unidades desse nível — comunitárias e particulares — não realiza essa função. Nos cursos de pós-graduação, os ajustes necessários são inúmeros para que eles se transformem numa usina confiável de geração contínua de novos conhecimentos. Enquanto nos países mais desenvolvidos, a inovação tecnológica sai direto de seus laboratórios de pesquisa e desenvolvimento para o chão das fábricas, entre nós, as teses e pesquisas, inaplicáveis, mofam em nossas bibliotecas. As empresas, que fazem da Ciência & Tecnologia utilidades para a massa da população, quase não têm o hábito de buscar o conhecimento de que precisam nas poucas universidades e institutos de pesquisa e desenvolvimento realmente capacitados. Tem-se ainda muito a fazer pela C&T no Brasil.
Diante desse quadro, o óbvio salta aos olhos: o Brasil carece de Ciência & Tecnologia, produzidas aqui. Copiamos quase tudo (nem sempre com sucesso) dos poucos países detentores de um dos poderes mais decisivos do mundo, maior que a hegemonia política ou econômica: o conhecimento técnico-científico, o know-how. Nossa entrada no Primeiro Mundo não se fará sem produção de informação técnica e científica, maior e mais significativa. Só o impulso de uma C&T nossas contribuirá para alavancar o país para um desenvolvimento pleno e auto-sustentado.
Pergunto: estaremos condenados a amargar essa posição de atraso científico e tecnológico no círculo vicioso que gera o subdesenvolvimento que por sua vez gera o atraso? É possível produzir conhecimentos e instrumentos válidos para fundamentar soluções adequadas aos nossos problemas? Que realidades tolhem a formação de um ambiente propício à experimentação e às pesquisas produtoras de um conhecimento técnico-científico, de teor universal, sem dúvida, mas principalmente direcionadas ao atendimento das necessidades próprias do país?
October 22nd, 2007 at 3:38 pm
[...] [este texto é parte de uma série; para ver o anterior, clique aqui]. [...]
November 13th, 2007 at 12:54 am
[...] 1 designer e 1 gerente) e enfrentamos diversos problemas inerentes a qualquer empreendimento em inovação. Em um dado momento, tínhamos, a competir pelo nosso tempo, 8 frentes de trabalho. Cada uma com a [...]
September 15th, 2008 at 12:43 am
Olá, adorei o texto… Estou escrevendo um artigo cientifico sobre o tema… “A necessidade de incentivar a criatividade em todos os setores do ambiente corporativo”. Inclusive, citarei este texto, pois mostra muito o que eu acredito. A rapidez com que a globalização difunde as informações (tecnologia) faz com que tudo se torne obsoleto quase que instantaneamente. E, no momento atual, pós-moderno, é necessário ter pessoas pensantes e não apenas atuantes, em todos os setores, para fazer a organização se desenvolver e se manter no mercado. Pois, acredito que, a inovação hoje, se faz necessária em todos os sentidos. Tanto na produção de novos produtos, quanto no desenvolvimento e melhoria dos processos organizacionais, com a criação de ferramentas e modelos que facilitem o trabalho e desperdicem o minimo tempo possível.
Bem, é por ai… queria ler mais textos seus…. adorei sua forma de se expressar… ah, by the way, eu sou amiga de Diana e Cecilia… qualquer dia desses passo la no c.e.s.a.r. pra conhecer, sou louca pra fazer isso… ai a gente troca uma idéia sobre o assunto…