blade runner: para[normal]
uma dúvida assola competições como o pan, olimpíadas e campeonatos mundiais de esportes, principalmente atletismo: daqui a quanto tempo atletas com dificuldades de locomoção ou sentidos terão, com auxílio tecnológico, superado seus problemas e, também, humanos [supostamente] normais?
a linha divisória do campo está vindo para o presente cada vez mais depressa… esta semana, oscar pistorius, sul-africano nas imagens, 20 anos, que nasceu sem as fíbulas [o antigo "perônio"] e teve suas pernas [abaixo dos joelhos] amputadas aos onze meses de vida, chegou em segundo lugar nos 400m rasos, contra corredores olímpicos na golden league, em roma.
pistorius corre sobre implantes removíveis de fibra de carbono. seu tempo foi
49.60s, 0.18s atrás do vencedor. o recorde mundial é de michael johnson, 43.18s, marca de 1999, no mundial de sevilha.
mas rola um problema: a International Association of Athletics Federations (IAAF) está pensando em desclassificar pistorius, que corre atrás do tempo de 45.95s [sua melhor marca é 46.34s; sanderley parrela faz a distância em 46.02s] para poder correr no mundial de osaka. boa sorte a pistorius e bom senso, associação das federações atléticas. se pistorius não pode correr, ninguém de óculos poderia atirar, tampouco. sem falar na pilha de atletas que está bombada, sob todo tipo de [bio]química e que só vez por outra aparece nas listas de dopados.
pistorius corre atrás da vaga para osaka hoje, domingo 15, em sheffield, uk. eu tô em duas torcidas: pela sua marca e para que a IAAF aceite o corredor no meio dos "normais".
July 15th, 2007 at 4:18 am
Olá Silvio,
Comecei a me interessar por esta questão quando vi sua entrevista ao jornalista Juca Kfouri. Quando li este post fui correndo no youtube para ver este atleta e realmente é algo impressionante.
Sobre a questão da possibilidade de desclassificação do atleta, acredito que a IAAF precisa tomar alguma providência, no sentido de estabelecer padrões e tipos de próteses que serão permitidas ou não.
No salto em altura por exemplo, uma prótese em que o atleta poderia vir correndo pulando e adquirindo altura e ultrapasse tranquilamente o atual recorde mundial de 2,45m.
Esta prótese suposta acima não difere em nada da prótese de Pistorius, ambas funcionam diferentemente de uma articulação, de um orgão humano, se funciona melhor ou não, não sabemos ao certo e com o passar do tempo com certeza pessoas com próteses iguais a de Pistorius irão superar atletas “normais”.
Gostaria de saber qual sua opinião a respeito, uma vez que neste post você é totalmente a favor de Pistorius, você é a favor da tecnologia sem barreiras em próteses no esporte?
Sei que o assunto que tratei acima principalmente no exemplo que citei é muito superficial e que um assunto deste envolve muitos detalhes técnicos e outras questões. Mas acredito que seja válido para uma discussão de um leigo como eu no assunto
Abraços
Igor Pucci
July 17th, 2007 at 8:32 am
Caro Silvio,
Acho que o buraco eh mais embaixo. Durante muitos anos pratiquei atletismo ai em Recife, fui varias vezes campeao Pernambucano, cheguei em segundo no Campeonato Brasileiro de Menores (ate 16 anos) e representei o estado em inumeras outras competicoes. Me aposentei quando entrei no curso de Ciencia da Computacao (no CIn).
Pessoalmente, acho que o atleta sul africano ao qual voce se refere eh um exemplo a ser seguido. O cara eh bom pra caramba! 400m rasos em 46 segundos *definitivamente* nao eh pra qualquer um.
Porem, em minha opiniao, a IAAF deve *sim* estudar o caso com cuidado e procurar saber que tipo de vantagem aquela perna mecanica traz para ele. Acho que o erro eh pensar o que aconteceria se eu, amanha, tivesse que correr com uma protese daquelas. Eh claro que eu nunca chegaria ao nivel que ele chegou. Mas o cara simplesmente nao sabe o que eh ter uma perna. Para ele, *aquilo* eh a perna dele. Ou seja, a desvantagem que ele tem, a principio, nao eh tao grande assim.
Por outro lado, e eu falo isto por experiencia propria, correr 400m rasos nao eh moleza. Na reta final parece que voce esta carregando um elefante nas costas. A perna queima e a cabeca doi. E uma perna artificial, nos ultimos 100 metros, podem sim trazer uma vantagem que eu nao posso ter. Em outras palavras, a batata da perna do cara nao cansa. E minhas caimbras no final das provas de 400m que corri sao provas que a famosa panturrilha nao esta ali de figurante.
Ha ainda a questao da resistencia do ar. Li que um estudo ja mostrou que a perna mecanica oferece menor resistencia do que, por exemplo, minha perna cabeluda.
http://www.usatoday.com/sports/olympics/2007-07-16-1373757997_x.htm
Ate onde eu sei, entretanto, a controversia foi criada porque nao ha um consenso a respeito das possiveis vantagens que a protese pode trazer.
Enfim, eu torco para que esta situacao se resolva. Eu vi a ultima corrida dele na televisao (passou ao vivo aqui onde eu moro) e na entrevista depois da prova ele me pareceu ser um cara “com os pes no chao” (no pun intended).
Porem, devemos ser justos com os outros atletas tambem.
Grande abraco,
Andre
July 17th, 2007 at 9:12 am
igor, andre, este e o debate mesmo. andre, tambem corri 400m quando estava na graduacao. e pau. a ideia por tras deste meu texto e um outro, bem anterior, neste blog, onde eu dizia que corpos sao plataformas programaveis em todos os sentidos. pistorius e UM dos exemplos. a confusao aumenta, no longo prazo, quando os atletas turbinados estiverem comecando a passar os atletas nao modificados. ainda vamos ver muito disso. e eu acho que simplesmente separar quem tem protese de quem nao tem nao vai resolver nada. o que esta em discussao e a propria nocao de humano… e todas as suas implicacoes.
s
July 17th, 2007 at 5:26 pm
Verdade, Silvio. O dificil sera definir o limite entre o que eh normal e o que nao eh. Um coracao artificial the bombeia sangue mais eficientemente seria permitido, por exemplo?
Pensando a respeito do assunto, me lembrei de um trecho do livro “The Age of Spiritual Machines”, Ray Kurzweil, 1999:
Our DNA-based cells depend on protein synthesis, and while protein is a marvelously diverse substance, it suffers from severe limitations. Hans Moravec, one of the first serious thinkers to realize the potential of twenty-first-century machines, points out that “protein is not an ideal material. It is stable only in a narrow temperature and pressure range, is very sensitive to radiation, and rules out many construction techniques and components…A genetically engineered superhuman would be just a second-rate kind of robot, designed under the handicap that its construction can only be DNA-guided protein synthesis. Only in the eyes of human chauvinists would it have an advantage”.
One of evolution’s ideas that is worth keeping, however, is building our bodies from cells. This approach would retain many of our bodies’ beneficial qualities: redundancy, which provides a high degree of reliability; the ability to regenerate and repair itself; and softness and warmth. But just as we will eventually relinquish the extremely slow speed of our neurons, we will ultimately be forced to abandon the other restrictions of our protein-based chemistry. To reinvent our cells, we look to one of the twenty-first century’s primary technologies: nanotechnology.
and the book goes on…
O assunto eh extremamente interessante e da muito o que falar. Como ex-atleta, minha tendencia eh ser contra qualquer tipo de ajuda artificial (ja pensou um judoca com dois bracos bionicos?). Mas este eh um caminho talvez sem volta.
Abraco de Londres,
Andre Mendonca