Archive for June, 2007

deu na folha: país se comoditiza

Monday, June 18th, 2007

cerca de 70% da indústria brasileira é de produtos de baixa ou média-baixa tecnologia, um aumento de 9% em dez anos. por outro lado, as empresas de maior conteúdo tecnológico encolheram19% no mesmo período e respondem, hoje, por 30% da indústria nacional. no setor de material eletrônico, a queda foi de 43% e o déficit comercial, só nos primeiros quatro meses deste ano, foi de US$4 bilhões, 27% a mais do que no mesmo período de 2006. pra gente se balizar, a indústria mineral nacional cresceu 100% nos últimos dez anos. exportamos pedras, importamos chips. e importamos software. e não conseguimos exportar.

fazer o quê? uma nova reserva de mercado e fechar os portos às nações "amigas"? não deu certo antes, por que daria agora? economistas alertam para a esclerose da indústria nacional. mas ninguém, nem na política industrial nem nos planos de crescimento, aponta alguma direção para renovar a indústria nacional.  isso quando já se sabe que vai ser muito dificil sustentar o país baseando nossa balança de pagamentos em commodities… seria de esperar que, face à gravidade dos dados, o governo estivesse dizendo que vai investir pesadamente em inovação [incluindo design], marca e reputação. para agregar valor. para ser desejado e, sendo, poder competir com a china, índia e os outros reis do pedaço fabril e de serviços. será que dá?

como este blog trata de tecnologias da informação, vamos olhar software, como exemplo das possibilidades nacionais de competir. não temos gente em quantidade suficiente, para começar. parte do software que está sendo feito para o brasil vem de fora, hoje. software é, em boa parte, gente educada, entendimento de problemas, mercados, empresas e cadeias de valor e a capacidade de resolver tais problemas no prazo, no preço, com a qualidade requerida pelo cliente. software é inovação. software é sociedade do conhecimento e métodos, regras, processos e ambiente de negócios de classe mundial, para competir globalmente.

aqui, além de não estarmos educando gente como deveríamos, nós ainda não fechamos a porta para que a lei de inovação inclua o setor de tecnologias da informação. parece brincadeira, mas é verdade. a política industrial do país é feita pela receita federal, pela dívida pública e pela ineficácia do estado. resultado: pouco investimento privado, baixas taxas de inovação e perda de competitividade. falando nisso, perdemos nove posições no último índice do fórum econômico mundial, o que nos põe em 66o. posição, 21 lugares atrás da áfrica do sul. lugar de onde, por sinal, vem ubuntu. breve, numa tela perto de você.

imagine cup: mais pernambuco na final

Sunday, June 17th, 2007

a categoria sistemas embarcados da imagine cup vai ter um time de pernambuco na final mundial, na coréia, em agosto. em maio, a final brasil qualificou um time de pernambucanos da UPE e ITA. a semi-final mundial de sistemas embarcados acaba de escolher outro time, de alunos do centro de informática da universidade federal de pernambuco e da usp para representar o brasil na final mundial, mais uma prova da qualidade dos alunos e do ensino de informática em recife. o que sempre nos leva a pensar em possibilidades muito mais radicais para o porto digital. parabéns à turma e muito boa sorte…

não dá pra resistir

Friday, June 15th, 2007

ainda com o corpo em pedaços por causa de mais uma palhaçada aérea [cheguei em casa hoje às 04:30h, ao invés das 00:30h...], não consegui resistir ao brilho de duke, chargista mineiro, premiado. é dele a bandeira acima, do marta-brasil, o país da bagunça, dos ministros que não se consegue entender porque estão lá e, porque não dizer, das amantes pagas por empreiteiras e da absolvição a priori de certos tipos de suspeitos… vá lá ver o arquivo de charges. aposto como vai ter gente dizendo que os ícones brancos, que parecem estrelas, no círculo azul, deveriam ser "outra" coisa. mas deixem como está. já é bom demais assim…

não dá pra relaxar…

Thursday, June 14th, 2007

são onze e meia da noite, quinta-feira, estou em guarulhos e meu vôo pra recife deveria estar no ar desde as 21:35h. acaba de ser anunciado que os zoneadores do tráfego aéreo só estão liberando uma aeronave para o nordeste a cada 40 minutos. como sempre, não há qualquer previsão sobre quando o nosso vôo poderá decolar. alguns passageiros ensaiaram um barraco com os agentes da companhia, mas acabaram por decidir que não há mesmo o que fazer. somos simplesmente mais uma manada de brasileiros à mercê do caos administrativo nacional, aqui representado, para os viajantes, pelo descontrole do tráfego aéreo.

pois é. estamos, alguns milhares de passageiros, nas mãos da combinação de falta de planejamento, investimento e incapacidade administrativa básicas, tentanto relaxar e gozar, como quer a ministra do turismo. mas não está dando não. o humor geral está ruim, as pessoas estão irritadas… pois ainda por cima  houve greve de metrô em são paulo hoje. pense no caos.

talvez seja uma boa oportunidade para se pensar porque não deveríamos estar fazendo um investimento muito maior em redes realmente banda larga, para diminuir o tráfego de corpos e aumentar sua aparição virtual, de qualidade, nos lugares onde tal presença fosse requerida. a vasta maioria dos castigados, aqui em cumbica, é de executivos e gente de negócios. uma ou outra família ou pessoas de férias. pelas minhas contas, se houvesse formas razoáveis, de boa performance, a custos suportáveis, a maioria de nós não teria nem viajado.

tempos atrás, havia outdoors de uma tele perto do aeroporto de lisboa anunciando seus serviços de banda larga. o texto era simples e, hoje e sempre, aplicável ao brasil: economize tempo e dinheiro. não vá. o problema é que ninguém vê a possibilidade de, tampouco, termos teletrabalho no brasil, nem tão cedo. fazer o quê, até lá?… relaxar e gozar? só mesmo no brasil alguém tão alto pensa e diz tamanha sandice e não se demite da vida pública, para sempre, logo depois. tomara que, algum dia, a coisa mude. nem que seja só um pouquinho…

open source: livros para o primeiro e segundo graus

Wednesday, June 13th, 2007

a califórnia gasta, por ano, US$400M em livros para o chamado K-12 [jardim ao décimo segundo ano da escola]. e as reclamações sobre qualidade e disponibilidade dos livros continuam, ano após ano. acontece que uma galera resolveu tentar uma solução diferente: o California Open Source Textbook Project [COSTP], cuja promessa é, simplesmente…

COSTP will employ the advantages of open sourced content and innovative licensing tools to significantly reduce California’s K-12 textbook costs — eventually turning K-12 curriculum and textbook construction from a cost into a revenue generator for the State of California.

Three – amongst many — COSTP benefits will be 1) the complete elimination of the current $400M+ line item for California’s K-12 textbooks; 2) a significant increase in the range of content afforded to California’s K-12 textbooks; 3) a permanent end to California’s textbook shortages; and 4) creation of fully portable content holdings database that scales with classroom technologies as they are introduced.

It is important to note that COSTP’s mandate does not replace printed textbooks; it simply makes them less expensive to produce; and, in doing so creates many additional benefits, economies, and efficiencies that will fully leverage California’s activities in the K-12 textbook publishing domain.

faltou dizer que, quanto mais mais professores [e pais, talvez alunos!] se envolverem na iniciativa, mais gente estará participando do debate sobre o conteúdo, a qualidade e a forma de ensinar o texto, levando a níveis bem mais sofisticados de entendimento do material a ser tratado em sala. quem participa do processo de construção do texto, nem que seja como revisor, acaba tendo que estudar mais, a priori, e refletir sobre o que, ao final, terá que "ensinar" na escola. capaz de vir a ser mais uma vitória da baixa contra a ALTA cultura.

deveríamos considerar seriamente a adoção de processos como este no brasil, principalmente nas regiões onde as deficiências da infra-estrutura de ensino, especialmente no lado humano, são mais graves. envolver os professores no desenvolvimento do material didático, de forma aberta, pode ser uma das maneiras mais interessantes e eficazes de [re]educar docentes e instrutores em geral. afinal de contas, um dos principais papéis das comunidades abertas clássicas [de desenvolvimento de software] é educacional: elas preparam os mais jovens para um mercado altamente competitivo, onde o diploma não vale nada. em software, o código e a infra-estrutura do presente e do futuro, competência, demonstrada na prática, é o passaporte para o trabalho. outra "vitória" da baixa contra a tal alta cultura…

fotoweb: e nós, aonde vamos?

Wednesday, June 13th, 2007

um terço dos usuários de flickr, nos eua, envia para o serviço fotos tiradas em seus de telefones celulares. mas nisso os eua estão lá no passado. na coréia, que é um dos lugares onde as coisas móveis realmente acontecem, 90% dos usuários de cyworld, o "flickr" de lá, enviam fotos direto de seus telemóveis. e no brasil?… algo me diz que os preços do tráfego de dados, aqui, precisam mudar. como já dissemos antes, temos um dos sms mais caros do mundo e uma das tarifas de dados mais extorsivas do planeta. cadê a anatel? aliás, cadê a competição entre as teles?

mediaon: começa hoje em são paulo

Tuesday, June 12th, 2007

o mediaon, seminário internacional de jornalismo online, começa hoje e vai até quinta em são paulo, no itaú cultural. a programação está aqui e amanhã [das 17:30 às 19h], estarei num painel sobre "Comunidades e informação: quais são as vozes independentes da internet", com  Fernanda Cerávolo, da vinil.com.br, Matthew Melucci, da beliefnet.com e Pedro Dória, antigo companheiro do no.com.br, hoje em nominimo.com.br. o evento será trasnmitido ao vivo pelo www.terra.com.br.

PL1120/2007: acesso ABERTO à produção científica

Monday, June 11th, 2007

começou a tramitar na câmara federal projeto de lei do deputado rodrigo rollemberg que, se aprovado, determinará a criação de repositórios institucionais abertos para divulgação de toda a produção técnico-científica de seus docentes, discentes e pesquisadores. o projeto está na comissão de ciência e tecnologia, aguardando paracer do deputado ariosto holanda.

justificando a proposta, o deputado rollemberg diz que… A disponibilização pública de conteúdos digitais, sua proteção legal e a garantia de acesso aos seus produtos derivados são fundamentais para alimentar as cadeias culturais, artísticas, educativas e científicas. Devem ser consideradas também as questões da proteção aos direitos autorais e da garantia do domínio público, no caso do resultado de pesquisas financiadas pelo erário. Nesse sentido, as declarações internacionais ajudaram a estabelecer os primeiros marcos para o início de uma discussão madura sobre tais temas.

a iniciativa do deputado rollemberg vem na onda criada pela budapest open access initiative, de 2002, que começa a ser seguida em todo mundo. em budapest, a argumentação começava dizendo que… An old tradition and a new technology have converged to make possible an unprecedented public good. The old tradition is the willingness of scientists and scholars to publish the fruits of their research in scholarly journals without payment, for the sake of inquiry and knowledge. The new technology is the internet. The public good they make possible is the world-wide electronic distribution of the peer-reviewed journal literature and completely free and unrestricted access to it by all scientists, scholars, teachers, students, and other curious minds. Removing access barriers to this literature will accelerate research, enrich education, share the learning of the rich with the poor and the poor with the rich, make this literature as useful as it can be, and lay the foundation for uniting humanity in a common intellectual conversation and quest for knowledge.

as leis, no brasil, boas ou más, muitas vezes não pegam porque não foram suficientemente debatidas e entendidas pela sociedade. o deputado ariosto holanda bem que poderia promover um conjunto de audiências públicas para que mais gente, em mais quadrantes da sociedade, tivesse ciência do que está rolando. onde se falaria sobre -por exemplo- as centenas de jornais científicos que já são abertos e se discutiria porque a proposta é boa. quem quiser apoiar, por sinal, há uma petição online para tal. eu já estou lá.

wazap!: mais busca vertical, agora para jogos

Sunday, June 10th, 2007

lembra de deligio, de que falamos aqui dias atrás [um engenho de busca de software]? pois bem. acaba de aparecer wazap!, que busca jogos. mais um sinal de que o mercado de busca não morreu, apesar de google estar caminhando para o monopólio nos eua [google > 2 x segundo lugar, mês passado]. da mesma forma que deligio, wazap! não é sobre achar jogos, apenas. no site, a definição passa por… Connect with other gamers, Submit ratings & comments on games and search results, Bookmark, tag, and track your favorite game info… ou seja: a busca de páginas "genérica"  tá madura e as novidades são na direção de busca por produtos [como deligio e wazap!]. breve, veremos busca por serviços [do tipo onde acho um serviço de tradução mandarim português?...]. no topo disso, as novas ofertas dos startups têm um componente social, onde talvez esteja escondida a próxima geração de busca: ao invés do onipotente pagerank de google, gente, nós, pra dizer se as coisas fazem sentido ou não. isso vai levar tempo e, por acaso, não é tão simples como parece. mas isso é outra história…

células tronco embrionárias: a petição

Thursday, June 7th, 2007

o STF está debatendo o uso de células tronco embrionárias, que podem vir a ser a única esperança de pacientes com lesões graves e incapacitantes. no centro da disputa, defendendo brilhantemente a posição científica a favor da liberação da pesquisa com as células tronco, está a geneticista MAYANA ZATZ [entrevistada por drauzio varella no link anterior: vá ler, vale a pena], pesquisadora de renome internacional, membro da academia brasileira de ciências e pessoa inatacável sob qualquer ponto de vista.

o subprocurador-geral da república, cláudio fonteles, entrou com a ação no supremo alegando que a lei das células tronco, aprovada no congresso por 96% dos senadores e 85% dos deputados, é inconstitucional. até aí, tudo bem. o procurador é pago para isso mesmo e está exercendo seu direito constitucional. pois não é que na discussão, no STF, sobre a motivação religiosa de sua ação, o procurador acusou a geneticista de ser motivada, em sua defesa da pesquisa com células tronco, por viés judaico?…

num ato de anti-semitismo explícito, que deveria estar banido, como muitos outros "anti-", de formas civilizadas de convivência humana, fonteles disse à  folha de são paulo que… “A doutora Mayana Zatz, que é o principal elemento de quem pensa diferentemente da gente, tem também uma ótica religiosa, na medida em que ela é judia e não nega o fato. Na religião judaica, a vida começa com o nascimento do ser vivo. Então, ao defender a posição dela, ela defende a posição religiosa dela, que é judia e que a gente tem de respeitar”.

fonteles, primeiro, tenta fugir à discussão da inconstitucionalidade pura e simples da lei, que trata de um avanço científico inestimável para os seres humanos, inclusive os intolerantes. em segundo, ataca de forma virulenta uma pesquisadora, movida pelo método científico, trabalhando em prol do país e do bem estar das formas de vida no planeta. vez por outra, as sombras da ignorância parecem querer tomar o mundo de assalto. desta vez, você e eu podemos fazer alguma coisa: assinar uma petição pela liberdade da pesquisa e pelo direito à cura, dos povos de todas as raças e credos, ainda por cima combatendo focos de obscurantismo medieval situados bem alto na hierarquia do poder no país.

faça alguma coisa, rápido: assine a PETIÇÃO PRÓ CÉLULAS TRONCO EMBRIONÁRIAS. diga ao brasil e ao STF que nós somos pela liberdade da pesquisa, em prol da vida e CONTRA o anti-semitismo como instrumento pessoal ou de estado. eu já assinei. mayana tem todo meu apoio.

 

convergência: perigo à vista?…

Thursday, June 7th, 2007

depois do senado, onde eduardo azeredo quer acabar com o sigilo das comunicações digitais, a câmara quer "acelerar"uma legislação específica sobre conteúdo convergente. senhoras deputadas e deputados, cuidado: o mundo anda se movendo muito rápido e a maioria dos sites, fluxos e serviços que realmente importa é mundial… não só seus endereços web, mas seu controle e conteúdo, podem vir de e estar em qualquer lugar. e nós, daqui, queremos estar lá fora: o mercado mundial é muito maior e mais interessante do que qualquer mercado local. tratem de construir a possibilidade do brasil ter mais mercado no mundo, ao invés de nos sujeitar a guetos e reservas de mercado setoriais e locais que tiveram, em nossa história, eficácia bastante discutível. por favor, deixem nas gavetas qualquer idéia de exercer controles indevidos sobre o que hoje [ainda] é um ambiente cultural [e de negócios] livre, pelo menos em países civilizados. coisa muito desejável por aqui, por sinal. e notem bem que este país ainda é uma democracia, ao contrário da situação imaginada por certos assessores do presidente. um deles, que acha tudo natural, nem desconfia que a venezuela [que tem seu apoio amplo, geral e irrestrito] está decaindo rapidamente para uma ditadura, também pela via do controle da mídia e comunicações por chávez, o paradigmático idiota latino-americano. portanto, muito cuidado aqui, senhores e senhoras.

[ps 1: declaração entre aspas do assessor citado acima: “Temos que dar a impressão de que somos democratas. Inicialmente temos que aceitar certas coisas, porém isso não durará muito”].

[ps 2: depois que escrevi a nota acima, a coisa complicou um bocado... num governo com os assessores descritos, o presidente, ele próprio, disse que acha "normal" quem "dá" uma concessão "cassá-la", basicamente a seu bel prazer. peraí, presidente, e as regras do jogo democrático?... veja aqui, no blog do noblat. enquanto isso, o país, sua cultura e inteligência continuam anestesiados, achando que nada disso é "muito" sério, que são apenas "deslizes" de expressão. será mesmo? se a gente não se cuidar, será que a onda das ditaduras vai varrer a pobre américa latina de novo?]

adorno para idiotas…

Tuesday, June 5th, 2007

andrew keen, autor do livro ao lado [clique para vê-lo na amazon], fez um sumário do texto inteiro em 10 pontos, uma espécie de manifesto anti-web2.0. o subtítulo do livro já diz a metade da história: como a internet de hoje está matando nossa cultura… [está mesmo? duvido.]. o primeiro ponto do decálogo é…

The cult of the amateur is digital utopianism’s most seductive delusion. This cult promises that the latest media technology in the form of blogs, wikis and podcasts will enable everyone to become widely read writers, journalists, movie directors and music artists. It suggests, mistakenly, that everyone has something interesting to say.

e o último volta a platão, e sua opinião sobre artistas que tinham, só por acaso, opinião:

The cultural consequence of uncontrolled digital development will be social vertigo. Culture will be spinning and whirling and in continual flux. Everything will be in motion; everything will be opinion. This social vertigo of ubiquitous opinion was recognized by Plato. That’s why he was of the opinion that opinionated artists should be banned from his Republic.

theodor w. adorno foi o mais importante filósofo alemão do pós-guerra e jürgen habermas, um dos mais importantes filósofos do mundo atual, foi seu aluno e assistente. para saber porque o "adorno para idiotas", leia o texto original de adorno sobre a indústria cultural [de 1944]. nem todo mundo, claro, tem alguma coisa relevante a dizer. mas todo mundo tem alguma coisa a dizer. e nada é mais importante, em benefício do próprio futuro da indústria cultural, que quem queira se manifestar que o faça. alto e bom som. e pra todo mundo. quem quiser leia [veja, ouça...] e goste. ou não. problema de cada um. só não venham limitar o meu [e seu, e o nosso] direito de dizer o que eu bem quero.

estamos vivendo [mais] um estágio da "indústria cultural", desta vez habilitada pela web, em que os mecanismos de refinamento que a cultura [em qualquer vertente] sempre teve, para selecionar e separar o que era "significativo" do que não era foram descontrolados de fato. como em um cartoon do começo da internet, qualquer um pode ser relevante: no momento, basta ter audiência. mas o momento muda e o refinamento acontece, paulatinamente, passo a passo, à medida em que vamos entendendo o que e quem vale a pena ler. trata-se de um processo educativo para todos.

a diferença, hoje, é que a prensa [virtual] de gutenberg está em sua versão web 2.0, elevando a democratização dos meios de produção de informação a níveis que nunca foram imaginados pela tal "indústria cultural". isso, claro, gera o caos "denunciado" por keen em seu "manifesto". mas não há, nem precisa haver, desespero. o tempo, a prática, os processos de seleção natural, em conjunto, vão criar as novas relevâncias e restabelecer alguma ordem. não, e nunca mais, toda a ordem que já existiu quando os donos de jornais e editores decidiam o que imprimir e distribuir. tal ordem, de resto, é do passado.

assim como gutenberg desorganizou o poder dos reis, igreja e mosteiros com a prensa de tipos móveis, criando outros poderes, a indústria cultural está sendo modificada para sempre pela liberdade criada pela web. as empresas e suas estruturas e práticas organizacionais vão pela mesma estrada. para sempre. sem volta. mas não estamos indo para o caos puro e simples, e sim para um mundo muito mais diverso, sofisticado e complexo… e mais, bem mais difícil de entender e administrar. bem-vindos. é só mais uma parte do futuro começando…