adorno para idiotas…
andrew keen, autor do livro ao lado [clique para vê-lo na amazon], fez um sumário do texto inteiro em 10 pontos, uma espécie de manifesto anti-web2.0. o subtítulo do livro já diz a metade da história: como a internet de hoje está matando nossa cultura… [está mesmo? duvido.]. o primeiro ponto do decálogo é…
The cult of the amateur is digital utopianism’s most seductive delusion. This cult promises that the latest media technology in the form of blogs, wikis and podcasts will enable everyone to become widely read writers, journalists, movie directors and music artists. It suggests, mistakenly, that everyone has something interesting to say.
e o último volta a platão, e sua opinião sobre artistas que tinham, só por acaso, opinião:
The cultural consequence of uncontrolled digital development will be social vertigo. Culture will be spinning and whirling and in continual flux. Everything will be in motion; everything will be opinion. This social vertigo of ubiquitous opinion was recognized by Plato. That’s why he was of the opinion that opinionated artists should be banned from his Republic.
theodor w. adorno foi o mais importante filósofo alemão do pós-guerra e jürgen habermas, um dos mais importantes filósofos do mundo atual, foi seu aluno e assistente. para saber porque o "adorno para idiotas", leia o texto original de adorno sobre a indústria cultural [de 1944]. nem todo mundo, claro, tem alguma coisa relevante a dizer. mas todo mundo tem alguma coisa a dizer. e nada é mais importante, em benefício do próprio futuro da indústria cultural, que quem queira se manifestar que o faça. alto e bom som. e pra todo mundo. quem quiser leia [veja, ouça...] e goste. ou não. problema de cada um. só não venham limitar o meu [e seu, e o nosso] direito de dizer o que eu bem quero.
estamos vivendo [mais] um estágio da "indústria cultural", desta vez habilitada pela web, em que os mecanismos de refinamento que a cultura [em qualquer vertente] sempre teve, para selecionar e separar o que era "significativo" do que não era foram descontrolados de fato. como em um cartoon do começo da internet, qualquer um pode ser relevante: no momento, basta ter audiência. mas o momento muda e o refinamento acontece, paulatinamente, passo a passo, à medida em que vamos entendendo o que e quem vale a pena ler. trata-se de um processo educativo para todos.
a diferença, hoje, é que a prensa [virtual] de gutenberg está em sua versão web 2.0, elevando a democratização dos meios de produção de informação a níveis que nunca foram imaginados pela tal "indústria cultural". isso, claro, gera o caos "denunciado" por keen em seu "manifesto". mas não há, nem precisa haver, desespero. o tempo, a prática, os processos de seleção natural, em conjunto, vão criar as novas relevâncias e restabelecer alguma ordem. não, e nunca mais, toda a ordem que já existiu quando os donos de jornais e editores decidiam o que imprimir e distribuir. tal ordem, de resto, é do passado.
assim como gutenberg desorganizou o poder dos reis, igreja e mosteiros com a prensa de tipos móveis, criando outros poderes, a indústria cultural está sendo modificada para sempre pela liberdade criada pela web. as empresas e suas estruturas e práticas organizacionais vão pela mesma estrada. para sempre. sem volta. mas não estamos indo para o caos puro e simples, e sim para um mundo muito mais diverso, sofisticado e complexo… e mais, bem mais difícil de entender e administrar. bem-vindos. é só mais uma parte do futuro começando…
June 5th, 2007 at 11:15 pm
É isso aà Silvio.. o seu último parágrafo explica muito bem.. quem escreve sobre esse tipo de coisas (acho que nem vale a pena ler!) ainda não está entendendo esse processo todo.. mas é só comparar o que aconteceu com a invenção da prensa de Gutemberg.. mais pessoas tiveram acesso a publicar,.. e graças a esse fenomeno estou lendo sempre as suas opiniões!
E vc também está recebendo feedback constantemente, num processo totalmente saudável e de crescimento! é o futuro começando!! até onde ele vai é a pergunta!
[]s
June 6th, 2007 at 6:13 am
E tem mais, esse negócio já rola faz 40 anos. Desde que a Xerox é Xerox e o mimeógrafo é mimeógrafo. Era em escala menor, mas era mÃdia gerada pela comunidade. Em particular, um exemplo bonito no Brasil dos anos 70: Escrevendo e fotocopiando (caminhando e cantando) contra a famigerada ditadura.
June 7th, 2007 at 4:21 pm
uma das maneiras de ajustar o exageiro tecnicista e’ fazendo uso dele. simples exemplo: filtragem de informacao. — se aplica a individuos, bem como a comunidades, com suas particulares necessidades e ideologias.
existe uma estabelecida enfermidade entre os “intelectuais de miolo duro”: medo do Movimento; mesmo que com rigor equivalente ao de outrora.
no passado, as meditacoes cartesianas e seus metodos deram impulso ao que determinaria as redias culturais de ai pra frente: sensacao de irrestritas possibilidades — definida estritamente por rigor intelectual e tecnico.
no inicio do seculo XX, a impressa-falacia vem a tona; e’ refutada por formalismos e outros metodos nao menos “serios”.
passado o tempo, a sensacao que fica e’ de certa amargura,
culminando por uma alergia as complexidades do pensamento no mundo pos seculo XIX. hoje, um academicismo enrigecido, sem criatividade e muitissimo mal-letrado, esperneia contra si proprio — numa debil atitude de questionar o inquestionavel.
em dizer: “a complexidade social e o exagero tecnicista levam a dissolucao de valores e ao rompimento intelectual. nossa cultura esta fadada a auto-aniquilacao.”
non causa pro causa.
russell, em “history of western philosophy”, p. 9;
“in general, important civilizations start with a rigid and superstitious system, gradually relaxed, and leading, at a certain stage, to a period of brilliant genius, while the good of the old tradition remains and the evil inherent in its dissolution has not yet developed. but as the evil unfolds, it leads to anarchy, thence, inevitably, to a new tyrany, producing a new synthesis secured by a new system of dogma.”
historia, enquanto elemento intelectual, e’ transitiva, nao definitiva. a percepcao de padrao historico deve ser utilizada como artefato de critica, buscando manutencao social. entretanto, o que mantem culturas sadias e’ a agonia e capacidade inventiva do momento de transicao; negar tendencias *essenciais* e’ bizarro e anomalo. (como DRM.)
se esta consumado, basta adequa-lo.
se ideologias e culturas nao serao (tao cedo) homogeneas, que os ismos de cada um e suas hermeneuticas sejam sinceros.
se isto e’ “relativista” ou, de outra forma, inadequado, faca-te o teu proprio e junte-se aos seus.
alta, tanto quanto baixa cultura, sao sub-culturas. sempre houve e sempre havera linhas demarcando os pisos culturais. cada macaco escolhe seu galho — “intelligentsia” ou “pop-cult”.
educacao e’, dadas oportunidades, idiossincrasia. que haja oportunidades.
e como informar e’ preciso… leiamos tambem, idiotas, aderidos-de-adorno (ou nao), intelectuais de miolo duro ou mole; todos: “arte e sociedade em marcuse, adorno e benjamin”; de j.g. merquior, ed. tempo brasileiro.
–tiago
June 12th, 2007 at 9:55 pm
O VELHO EMBATE: ALTA CULTURA CONTRA CULTURA DE MASSAS
É realmente espantosa a facilidade com que certas pessoas chamam as outras de idiotas. Pressupõe-se que, para fazê-lo com tanta desenvoltura, no texto denominado “Adorno para idiotasâ€, Silvio Meira acredita que não é idiota.
Surpreende que um autor que em seu texto arvora-se a condição de defensor da democracia e da diversidade, classifique de idiota um autor que pense de uma maneira diferente da sua.
Percebe-se qual a democracia e a diversidade que Silvio Meira: é o direito de pessoas de baixa cultura, cujo o único referencial intelectual é a subcultura pop, a difundir, suas superficialidades na internet. Realmente Silvio Meira, a internet não está acabando com a nossa cultura, está apenas sedimentando a vitória da trivialidade, do infantilismo mental, que sempre caracterizaram a cultura de massas. Afinal, o que é a internet senão um subproduto da cultura de massas, do pop, do subdesenvolvimento intelectual? As pessoas que comumente a utilizam, realmente têm o que dizer: mas apenas no plano do entretenimento. Não num patamar mais elevado da alta cultura.
SÃlvio Meira usa a palavra educação quando na verdade as pessoas não se educam com a internet. Elas apenas reforçam as suas próprias superficialidades, com troca de informações sobre o universo da cultura de massas: filmes, livros, música, escolaridade, trabalho, todos de quinta categoria. Paulo Francis já dizia: “Cultura não é acúmulo de conhecimento, mas assimilação orgânica de conhecimento.†Quantos dentre os milhares de internautas vivem este clássico e profundo processo? Creio que muito poucos. A maioria aprende qualquer coisa, de qualquer jeito, por um tempo muito rápido. Uma vez mais, cultura de massas: a rapidez do vÃdeo-clip, rapidez dos que são incapazes de ler com atenção e paciência um texto qualificado.
O fato concreto é que os jovens internautas não conhecem cultura de verdade, porque a experiência da cultura elevada exige tempo e eles não têm tempo para isso. Como ler a BÃblia, Shakespeare, Cervantes, Joyce ou Pynchon se esses meninos e meninas que SÃlvio Meira defende ( por mero interesse econômico, pois SÃlvio Meira vive do lucro de sua empresa de informática ), estão ocupados em ler Henry Potter, ouvir Eminem e assistir “O homem aranha 3†?
Aliás, é este tipo de “criação cultural†que SÃlvio denomina de “um mundo muito mais diverso, sofisticado e complexoâ€. A cultura da internet não tem sofisticação nem complexidade alguma. É apenas diversa. Diversa porém inculta, sem alcance intelectual e espiritual de qualidade. Por mais que os teóricos do pop queiram forçar a barra, não adianta, Andy Warhol não é igual a Picasso, U2 não é igual a Vivaldi, “Piratas do Caribe†não é igual a um filme de Tarkovsky. Internet é a pré-história disfarçada de futurismo. Ou, por outra, é o presente e o futuro da baixa cultura de massas e seus pobres defensores como SÃlvio Meira.
Quem vive a realidade desse universo não pode compreender que o material de que é composto e se forja um Mozart, um Michelangelo ou um Shakespeare, é infinitamente mais complexo, rico e verdadeiramente profundo do que o material “cultural†difundido pelos internautas.
Até que SÃlvio Meira não é dos piores no domÃnio das palavras. Mas ainda é fraco. E já que ele atreveu-se a indicar adorno para idiotas como eu, indico Gilberto Freire, para que aprenda a desenvolver com elegância seus textos.
Outra coisa: SÃlvio Meira critica os editores, elogiando a internet por publicar todo mundo democraticamente. Me recuso a defender uma democracia que promove o baixo nÃvel cultural. Prefiro o elitismo dos editores que selecionam textos. Afinal, é por causa do rigor de suas escolhas que a mais importante revista do paÃs, a Veja, publica os textos belÃssimos e cultos de Roberto Pompeu de Toledo. Na democracia da internet temos que ler textos menores como o de SÃlvio Meira.
É preciso repetir para esses internautas, a observação do maior crÃtico literário americano, Harold Bloom: conhecimento é encontrável em todo canto. Entretanto a sabedoria, só é localizável nos grandes livros. O livro é avançadÃssimo, é nele que reside a vanguarda do pensamento universal significativamente válido. Nada mais retrógrado do que a internet, em que recuamos ao barbarismo do diálogo e troca de informações, entre pessoas de formação duvidosa.
Rivalter Pereira, 32 anos, é ficcionista e ensaÃsta, tendo 5 premiações literárias, dentro e fora de Pernambuco.
June 13th, 2007 at 1:40 am
rivalter, bem-vindo ao futuro. leia o texto de keen, releia o meu, releia o fim do meu. da mesma forma que gutenberg desorganizou antes [e criou editores e literatos, como voce] a internet desorganiza agora. a industria cultural esta para sempre mudada e, agora mesmo, esta sendo recriada. ha, a caminho, uma nova industria cultural… pode ser ate melhor do que a que havia antes. uma coisa e certa: nao sera igual, pois provavelmente mais igualitaria sera… tomara que voce faca parte dela.
grato por se dar ao trabalho de ler gente de formacao duvidosa como o locutor que vos fala. como se ve, ouve e le, e a nova cultura, na rede, fazendo sua parte, atraindo atencao, sendo debatida. axe’.
s
June 13th, 2007 at 11:39 pm
Acho que o problema é o google. É muito difÃcil usar o google.
Por exemplo, para encontrar as obras completas de Machado de Assis você tem que digitar numa caixa de texto Machado de Assis (e apertar enter…).
Silvio, isto me faz pensar numa frase escrita no centro da Universidade de São Paulo: “No Universo da cultura, o centro está em toda parte”… Pensando assim, todas as “páginas” são centróides. Cada página uma resposta para uma pergunta. O que faz dos programas de busca os recursos mais valiosos do ciberespaço. O tamanho da internet polui! Ao mesmo tempo que as páginas são respostas relevantes a algumas perguntas, elas são irrelevantes para um conjunto incontável de outras (perguntas).