américa latina: os idiotas, de volta?

esta nota é uma contribuição à categoria custo brasil deste blog; na verdade, nela se põe no mesmo saco o brasil e a américa latina. david s. landes, em seu aclamado história da riqueza e pobreza das nações [por que alguns são tão ricos e outros tão pobres?], nos junta -inequivocamente- à américa latina a que pertencemos [e da qual às vezes parecemos querer escapar...]. j. bradford delong sabiamente resume o livro neste link e o parágrafo…

If there is a single key to success–relative wealth–in Landes’s narrative, it is what science fiction writer David Brin calls the dogma of openness. First, openness is a willingness to borrow whatever is useful from abroad whatever the price in terms of injured elite pride or harm to influential interests. One thinks of Francis Bacon writing around 1600 of how three inventions–the compass, gunpowder, and the printing press–had totally transformed everything, and that all three of these came to Europe from China. Second, openness is a willingness to trust your own eyes and the results of your own experiments, rather than relying primarily on old books or the pronouncements of powerful and established authorities.

quase serve como sumário do livro como um todo. pois bem: álvaro vargas llosa, do Center on Global Prosperity, acaba de publicar um texto muito interessante em Foreign Policy sobre a volta do idiota latino-americano, uma espécie de post scriptum ao seu livro Guide to the Perfect Latin American Idiot, escrito com co-autores há uma década. a abertura do artigo diz que…

Ten years ago, Colombian writer Plinio Apuleyo Mendoza, Cuban writer Carlos Alberto Montaner, and I wrote Guide to the Perfect Latin American Idiot, a book criticizing opinion and political leaders who clung to ill-conceived political myths despite evidence to the contrary. The “Idiot” species, we suggested, bore responsibility for Latin America’s underdevelopment. Its beliefs—revolution, economic nationalism, hatred of the United States, faith in the government as an agent of social justice, a passion for strongman rule over the rule of law—derived, in our opinion, from an inferiority complex. In the late 1990s, it seemed as if the Idiot were finally retreating. But the retreat was short lived. Today, the species is back in force in the form of populist heads of state who are reenacting the failed policies of the past, opinion leaders from around the world who are lending new credence to them, and supporters who are giving new life to ideas that seemed extinct.

em uma análise do livro original, feita em 2001, anthony daniels detonava o marasmo intelectual latino-americano:

Man is born rich, but almost everywhere is poor. It is to the elucidation of this paradox that many of the finest minds of Latin America have been devoted for nearly a century. And the best answer they have been able to give is that most men are poor because a few men are rich. And, by the same token, those few men are rich because most men are poor. On this view, wealth is a form of institutionalized plunder. Nothing had to be —or remains to be—discovered, invented, or developed. The wealth of the world has been the same since the beginning of time and will remain the same until the end of time. Hence your slice of the economic cake, both personal and international, necessarily decreases the size of mine, and thus poverty is always someone else’s fault. This means that the wealth of Europe and America was erected on a foundation of cheap bananas.

nem toda a inteligência da américa latina, felizmente, está morta ou perdida. mas álvaro vargas llosa tem razões para estar assustado: nós estamos certamente vivendo o retorno de um grande número de idiotas, e não se trata, claro, de indivíduos sem educação ou poder. e parece, como sempre, que levaremos muito tempo para nos livrarmos deles. na américa latina, como dantes, muito pode ser nunca. uma pena. para ler o artigo original sobre os novos idiotas latino-americanos, é só clicar aqui. boa leitura. e não desespere… a esperança, mesmo na américa latina, é a última que morre. quer saber o fim do texto? t´aqui o penúltimo parágrafo…

Does it really matter that the American and European intelligentsia quench their thirst for the exotic by promoting Latin American Idiots? The unequivocal answer is yes. A cultural struggle is under way in Latin Americabetween those who want to place the region in the global firmament and see it emerge as a major contributor to the Western culture to which its destiny has been attached for five centuries, and those who cannot reconcile themselves to the idea and resist it. Despite some progress in recent years, this tension is holding back Latin America’s development in comparison to other regions of the world—such as East Asia, the Iberian Peninsula, or Central Europe—that not long ago were examples of backwardness. Latin America’s annual GDP growth has averaged 2.8 percent in the past three decades—against Southeast Asia’s 5.5 percent, or the world average of 3.6 percent.

 

10 Responses to “américa latina: os idiotas, de volta?”

  1. Francesco Says:

    Super interessante, muito obigrado.
    Francesco

  2. Juca Azevedo Says:

    O texto do Álvaro Vargas Llosa está disponível em português na última edição da Veja.

  3. João Matias Says:

    Parece-me uma visão por demais conservadora e impositora (para não dizer fascista) a de que a solução para a América Latina é transformá-la numa colônia dos Estados unidos e do primeiro mundo “high-tech”, com todo o ideólogo e estilo de vida que lhes comporta. Onde fica a identidade cultural e pátria em meio a todo essa violência?!

    Álvaro Vargas llosa deve ter algum grau de parentesco, que desconheço, com Mário Vargas llosa, escritor peruano conhecido por seus posicionamentos direitista e pró-américa.

    Por favor, deixemos o discurso de “By America for America” para estudantes alvejados com armas de fogo em escolas e faculdades tecnológicas, bem como para os familiares, crentes na fé de que quem o faz é meramente por desequilíbrio mental e nunca por revolta com esse discurso.

    Sílvio, você é um cara muito bacana, mas, pra quem nasceu em Taperoá, cidade do célebre Ariano Suassuna, suas idéias parecem divergir das dele. Para o escritor paraibano, “show” continuará sendo uma interjeição usada pra tanger galinha. E eu, pessoalmente, não o acho um “idiota latino-americano” por isso.

    Abraços.

  4. Silvio Meira Says:

    jota matias… grato pelo comentario. ja faz tempo que nao julgo as pessoas por serem de direita, esquerda, X ou Y, azuis ou vermelhas. nao tenho nenhuma intencao de promover o alvaro vl, tambem. mas acho que o texto dele merece ser lido e comentado. e criticado, como voce o fez. e a minha posicao esta resumida na frase, acima… “nem toda a inteligência da américa latina, felizmente, está morta ou perdida. mas álvaro vargas llosa tem razões para estar assustado: nós estamos certamente vivendo o retorno de um grande número de idiotas…”

    e nisso eu concordo com ele, em genero, numero e grau. nos ainda vamos ver o estrago de longo prazo que os chavez e morales vao causar aos seus paises e povos, e nao temos poucos exemplos, em governos locais e parte do governo nacional, aqui pelo brasil.

    o tipo de populismo missionario e salvacional representado por muitos destes novos idiotas so faz a gente se perder, ainda mais, nas discussoes erradas. e o texto de vl nao prega que sejamos uma sucursal dos eua nao. na verdade, ele diz que e uma perda de tempo se ter como politica uma oposicao sistematica aos eua, sem ter alternativas reais para se construir algo dentro de seu proprio universo. e e´ mesmo, na minha opiniao. coisa de quem nao tem nada melhor para propor ao seu povo. pelo menos desta nos escapamos.

    e ariano, que eu conheco pessoalmente, e um dos intelectuais mais interessantes desta nossa america. boa parte do que ele FAZ, DIZ e ESCREVE vem DE FORA, por sinal. da literatura iberica, com tintas europeias, de uma certa epoca da europa, misturada com o povo de la que veio pra ca e se fixou no brasil real do nordeste. e o que ariano faz nao e diferente de… como jbdl diz [la no comeco do meu texto] professar uma “openness”… que e uma ” willingness to borrow whatever is useful from abroad whatever the price in terms of injured elite pride or harm to influential interests”…

    claro que, depois de haver tomado emprestado uma certa parte do “whatever is useful” e ter inovado radicalmente nisso, ariano se fechou para defender um mundo que esta´, sim, verdadeiramente ameacado de extincao. e se nega a ir de novo aos emprestimos. isso enquanto o mundo toma emprestado dele. tudo bem. a vida continua. quem viver vera. eu acho que seremos cada vez mais um mundo inteiro… no longo prazo, e nao aos pedacos como vemos agora. e que os passos dos idotas para manter a america latina como ROW, rest of the world, onde sempre aparecemos em todas as estatisticas, fracassarao de forma retumbante.

    pode levar, e eu acho que vai levar, 100 a 200 anos pra resolver o presente da america latina. mas para cada um de nos que se torna verdadeiramente educado e critico, morre um idiota. talvez por isso os idiotas nao queiram educar, e sim catequizar, com cartilhas que, filosofica, social e economicamente, estao irrecuperavelmente mortas. mas no fim o povo sempre se safa e acha seus meios e metodos para chegar onde tem que chegar. e nao acho que queremos ser idiotas nao. nem voce, nem eu, nem quase ninguem. mas para uns, ser idiota e uma profissao… que as vezes e uma fonte de poder, frente a massas ignaras…

  5. Silvio Meira Says:

    da série… ::ninguem ajuda a bolivia ajudando UM dos bolivianos::

    do estadao de hoje:

    Lula negociou para não ser acusado de desestabilizar Evo

    Petrobrás foi coadjuvante; presidente exigiu valores finais das refinarias em ‘papel assinado’

    Denise Chrispim Marin e Beatriz Abreu

    Bem diferente do discurso oficial ao longo de toda a semana passada, não foi a Petrobrás que fechou a negociação da venda das duas refinarias da estatal brasileira na Bolívia, em Cochabamba e Santa Cruz de la Sierra. A empresa, o Ministério de Minas e Energia e o Itamaraty forneceram assessoria técnica e diplomática, mas todas as decisões foram tomadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com uma preocupação política que superou as questões econômicas do negócio.

    Dois ministros e uma alta fonte da assessoria do Planalto foram unânimes nos relatos feitos ao Estado, na quinta-feira e sexta-feira: eles disseram que, diante do previsível fracasso do modelo nacionalista estatizante boliviano, o presidente cuidou, o tempo todo, para que a venda das refinarias fosse feita de um jeito que ‘não transformasse o governo Lula em bode expiatório’. Isto é, de um jeito que não permita que Evo Morales venha a acusar a Petrobrás e o ‘imperialismo brasileiro’ de terem contribuído para desestabilizá-lo.

    link – http://www.estado.com.br/editorias/2007/05/13/eco-1.93.4.20070513.17.1.xml

    detalhe: ao inves de se OPOR abertamente a algo que considera ultrapassado e FRACASSADO, o governo brasileiro prefere se ESCONDER atras de atitudes “leves”. pra que? para adiar o caos final na bolivia? bom… deixa pra la…

  6. João Matias Says:

    Ainda assim, Sílvio, não acho que a privatização em massa das riquezas e serviços no Brasil (ou na América Latina como um todo) seja a solução para o problema.

    Em um brilhante documentário chamado “The Corporation”, os diretores Mark Achbar e Jennifer Abbot mostram como as corporações vêm agindo ao longo da história para manter-se firmes no domínio da política global. Sabe-se hoje que muitas corporações financiaram e incentivaram regimes totalitários (sobretudo aqui na latino-america) e fascistas (europa em geral). Enfim, não vejo o capitalismo selvagem à la “privatização em massa” como uma saída para os problemas do mundo (pois não são só do Brasil).

    Sobre o caso boliviano, o Evo tinha e apresentou propostas antes de ser eleito pelos bolivianos. Dentre as propostas, creio eu, havia a de estatizar setores estratégicos da economia, como é o caso do petróleo. Fato é ainda que Evo foi eleito legitimamente (tal qual Hugo Chavez na Venezuela) como representante maior do povo boliviano, e, se eleito foi, é porque a maioria dos bolivianos aprovava suas tensões de nacionalizar a economia. Enfim, se as estatizações são benéficas ou não, penso que a vontade do povo deva ser respeitada antes de qualquer argumento contrário. O que seria democracia se não for isso?

    A bipolarização atual dos conceitos e ideologias divide-se em Estados Unidos e Venezuela/Cuba, mas ainda assim eu prefiro olhar para exemplos maiores como é o caso das democracias na Suécia, Canadá, Noruega, etc.

    Mas essa é uma outra conversa. :)

    Sílvio, publiquei uma biografia sua em meu blogue (categoria “Biografias”, fica abaixo de uma do Ariano mas isso não quer dizer nada, hehehe), e também tenho o seu blogue entre os meus “Blogues de Amigos”.

    Abraços!

  7. silvio meira: dia a dia, bit a bit Says:

    [...] pela via do controle da mídia e comunicações por chávez, o paradigmático idiota latino-americano. portanto, muito cuidado aqui, senhores e [...]

  8. Chantinon Says:

    Eu adoro ler, ver e ouvir debates sobre o que é esqueda, direita… E quando alguém puxa da manda algum termo como fascista, imperialista… Eu sei que vou me divertir.
    Quando quero saber o que o mundo acha de um filme, eu procuro ler as criticas negativas. Se um filme é bom, e tem muitas notas elevadas, eu me prendo as negativas.. E ai que vem as boas gargalhadas.

    É como sentar numa mesa de bar e algum “socialista” bradar Fidel e sua Cuba, e na mesma mesa um cubano falar: Vai morar lá.

    O filme do CUBANO Andy Garcia (Cidade Perdida), e um retrato dessas disparidades de opiniões.
    http://www.adorocinema.com/filmes/cidade-perdida/cidade-perdida.asp

  9. dia a dia, bit a bit… por Silvio Meira » bolívia estatiza telecom: mau sinal Says:

    [...] o problema que tem que ser resolvido, em países como a bolívia, é o da ineficácia e ineficiência do estado, o que não se faz pela dupla via da nacionalização e estatização, auxiliares diretos do processo de desorganização dos mercados e da concentração do poder nas mãos de uns poucos que, na américa latina e alhures, agem em nome de um certo “povo”, como é o caso de morales e, porque não dizer, chávez. os dois, aliás, protagonizam [segundo álvaro vargas llosa], assumindo papéis principais, a volta do idiota latino-americano. [...]

  10. The return of the Latin America Idiot « Novefevereirodoismilesete Says:

    [...] by fracardi on May 12, 2007 Fantastic post from Silvio Meira on “the return of the Latin America Idiot”. Especially enlightening [...]

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