arquivo noponto: mudando o mundo. como?

comecei a escrever um texto sobre tecnologia e sociedade e me lembrei que havia publicado um artigo relevante para o que viria a ser a discussão na finada noponto. uma busca nos meus alfarrábios digitais produziu um texto de primeiro de setembro de 2000 sobre mudanças e tecnologia, onde c. p. snow [e seu livro "the two cultures"] são o ponto de partida para uma digressão sobre como “mudar o mundo”. o texto de 2000 vai a seguir e, algum dia na semana que vem, o artigo sobre tecnologia e sociedade aparece…

MUDANDO O MUNDO. COMO?

Tecnologia é cultura, é uma das três culturas. C. P. Snow falava de duas, apenas: ciência e humanidades. Mas prefiro um espaço tridimensional onde a ciência é o eixo da verdade (da descoberta, do entendimento do mundo em que vivemos); a arte é o domínio da estética, da procura da beleza e a tecnologia, ao invés de ser uma (não tão) simples conseqüência das descobertas científicas e sua aplicação no mundo real é, de fato, o domínio da possibilidade. Parte significativa do que a tecnologia faz vem da experiência, às vezes não muito bem explicada, da montagem de “legos” de conhecimento, às vezes apenas prático.

Pegue o exemplo da aspirina: desde Hipócrates (ao redor de 2000 AC!) que as folhas e casca do salgueiro eram prescritas como medicamento para aliviar dor e febre. Em 1900, quase quatro mil anos depois, como conseqüência do trabalho de Felix Hoffman, que sintetizou uma forma estável do ácido acetil salicílico em pó, a Bayer começou a vender aspirina em tabletes. Até aí, sabia-se mais sobre o salgueiro do que Hipócrates, mas não porque AAS baixava febre e diminuía dor de cabeça. A ciência só carimbou a verdade com o Prêmio Nobel de 1982, dando a láurea a Sir John Vane, por ter descoberto que o mecanismo de ação da aspirina é inibir a produção de prostaglandina. Problemas, mercado, tecnologia e risco são o caldo da inovação: é por aí que o mundo muda.

No pequeno mundo das tecnologias da informação, que ultimamente afeta e habilita todos os outros, as coisas acontecem da mesma forma. Não deveria ser surpresa para ninguém que quase a totalidade dos programas de computador têm defeitos (ou “bugs”), desde os que usamos nos nossos PCs até os que a NASA faz para suas sondas espaciais. Quase nenhum deles está baseado em teorias razoavelmente estáveis ou provas de correção, mais ou menos formais, de suas propriedades. Mas, tanto quanto a aspirina antes de 82, diminuem a nossa dor: fazem operações que nos dariam muita dor de cabeça pra fazer como nossas redes neuronais, sentidos e membros. E, por sinal, fazem coisas que não conseguiríamos de jeito nenhum.

Mesmo não sendo estas brastemps, os dispositivos construídos sobre as tecnologias da informação e a pouca ciência que os sustenta estão mudando o mundo numa velocidade muito grande. E, às vezes, na direção errada. Porque, se tecnologia é cultura, tecnologia tem que se inserir na cultura que ela muda, quando é introduzida, nas instituições e na sociedade. Sem falar nas pessoas. Qualquer combinação de software e hardware pode ser vista como um sistema de informação que pode ser dividido, literalmente, no sistema propriamente dito e a informação, suas propriedades e contexto que trata (incluindo aí regras de negócio, gente, problemas, oportunidades…).

O sistema, por sua vez, é uma composição das tecnologias usadas para sua construção e a capacidade de aplicação das mesmas em um dado ambiente de informação. O que normalmente significa que um grande especialista em sistemas financeiros, por exemplo, vai estar perdido se o problema à sua frente for desenvolver um sistema de e-mail. Depois de quase 30 anos fazendo software, acho que descobri as porcentagens que regem as divisões acima: um sistema de informação é 10% sistema e 90% informação. E o sistema é 10% tecnologia e 90% aplicação, o que faz com que a tecnologia, de fato, seja apenas 1% da solução.

Tudo isso é pra dizer que, se você quer mudar o mundo com tecnologia, principalmente da informação, deveria entender o mundo antes, já que 99% da solução de qualquer coisa está lá fora e não nos seus programinhas, por maiores e mais sofisticados que sejam. Para entender os princípios, problemas e oportunidades envolvidos no processo, uma primeira boa leitura é How To Change the World: Lessons for Entrepreneurs from Activists, de Adam Kahane, cujo .PDF está em www.gbn.org. O endereço é a sede do Global Business Network, do qual faz parte Peter Schwartz, um dos pioneiros do uso de cenários em planejamento, usado para entender países (como África do Sul e Colômbia), grandes e pequenas corporações e novos produtos.

[Adendo, 2007: quem disse que um link iria sobreviver SETE anos? o artigo de Kahane agora está aqui...]

2 Responses to “arquivo noponto: mudando o mundo. como?”

  1. Nelson Biagio Junior Says:

    Muito bom, Silvio.

    Valeu pela dica!

    Abraços e boa semana.

  2. SHIRLEY MORETY DE BARROS Says:

    Mudar com um Novo Olhar, Novo Pensamento, Nova atitude… Juntar uma vida alegre com a vida digital.. Tudo muda: mente, imaginação, arquitetura, meio ambiente, consumo, religião – Caso vc mesmo possa permitir e aceitar as mudanças.

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