[long tail]: iptv is [infinite] personal tv
bill gates anunciou ao mundo, em davos, que IPTV vai mudar o mundo da TV em cinco anos. acho que ele estava falando apenas dos países [muito] ricos, onde banda larga é larga mesmo. aqui no meu pedaço de pindorama, medidas diversas na minha “banda larga” não deram mais de 200kbps, isso num sábado à tarde. os cinco anos de gates, aqui, podem vir a ser muito mais. de dez a quinze. ou mais, no pior caso, que é o da anatel continuar sem funcionar e as empresas de telecom não serem cobradas nem por performance e tampouco por universalização de serviços.
bem, mas o que interessa aqui é gates (re)dizer que vídeo online e a fusão de PCs e TVs vai mudar a experiência “televisiva” e que “in the years ahead, more and more viewers will hanker after the flexibility offered by online video and abandon conventional broadcast television, with its fixed program slots and advertisements that interrupt shows”. tal tese não é novidade e gates está cumprindo seu papel de garoto propaganda, pois a microsoft tem interesses gigantescos em IPTV e está montando uma vasta rede mundial de alianças para disseminar a tecnologia e seu uso.
qualquer um que tente entender pode citar muitas diferenças entre IPTV [TV via internet, sobre protocolo IP] e TV digital normal, aberta. com vantagens para a primeira, a menos dela precisar de conexões banda larga. o que vem a ser, na verdade, a grande vantagem de IPTV: vendo tv na rede, você está na rede, claro. e pode combinar com seus amigos ver o mesmo programa e interagir com eles, enquanto o show ou novela está rolando. a interação não precisa ser pela infra-estrutura de IPTV, se o sistema operacional do seu set top box deixar, ou se você tiver IPTV num PC; pode rolar no skype video ou qualquer outra coisa que você queira. só é preciso ter banda larga [de verdade] nas duas direções…
o modelo de tv digital aberta supõe que uma pequena parte da atividade do usuário vai ser interativa e que, claro, o “canal” controla a programação. isso significa que o programador central continua definindo o que seu público vai ver e que não há tempo de TV suficiente para atender às demandas específicas de todas as micro-comunidades de espectadores. em IPTV, desde que as aplicações estejam disponíveis, TV deixa de ser TV e passa a ser um conjunto de aplicações multimídia, interativas e verdadeiramente multidirecionais, sobre a plataforma IP. você pode parar a programação enquanto vai ao banheiro; pode trazer vídeos, sob demanda, para seu set top box enquanto vê outro programa… não que você precise, porque alguma hora sua banda vai exceder 100 megabit por segundo, e isso dá pra bem mais do que dois vídeos simultaneamente.
mas a parte mais interessante é que IPTV pode ser o tratamento ideal do long tail de entretenimento. a bear stearns propõe um futuro onde agregação e contexto e (não necessariamente) conteúdo serão os reis do entretenimento e, se eles estiverem certos, o futuro não vai ter as mesmas empresas que estamos vendo hoje, no mercado, de jeito nenhum. porque a tecnologia está mudando a equação de criação de conteúdo, tanto ou mais do que muda o processo de sua distribuição. os mercados [a audiência e a criação] vão se fragmentar muito mais e os nichos serão ínfimos; ganhará quem conseguir filtrar e empacotar a miríade de alternativas, dar-lhes contexto e agregar experiência e valor aos mesmos.
haverá TV broadcast daqui a vinte anos? sim. terá a mesma importância de hoje? não. especialmente [e talvez somente] onde IPTV for uma alternativa real para o usuário [e não para o espectador]. porque eu posso estar interessado somente nas provas de natação da olimpíada e ter o streaming apenas das câmeras da piscina, em tempo real, mesmo que não haja áudio. tal “programa” jamais encontrará patrocinadores ou espaço na grade de programação normal. pense em dez canais de TV aberta. pense em 200 canais via satélite. imagine, agora, um número infinito de canais de TV em banda larga. incluindo a câmera daquela barraca de maracaípe, pra você ver quem está pegando onda enquanto você está no trampo.
só tem um pequeno problema: do jeito que a microsoft, entre outras, está montando o negócio de IPTV, tem muita operadora de telecom no meio… é por lá que os canais passam e onde os vídeos que se pega, sob demanda, estão hospedados. há uma variedade de explicações pouco plausíveis para tal decisão [como o fato de que a tele administra a qualidade de serviço da rede para garantir a performance das aplicações… o que pode detonar, de vez, qualquer princípio de neutralidade da rede] mas é bem mais provável que haja teles no meio do campo porque 1] suas redes são fechadas e as aplicações e conteúdo, lá, ficam teoricamente mais seguras [e nós não podemos instalar nada] e 2] as teles têm uma longa experiência e história de precificar e cobrar pelo uso dos seus serviços, coisa que as TVs ainda não entenderam que vai ser fundamental no futuro. as teles sabem onde os clientes estão e lhes enviam contas telefônicas desde que j. p. morgan financiava graham bell no fim do século 19.
em davos, gates estava anunciando -também- que seu negócio é mídia e interação. que o mercado de PCs e seu software está mudando e que sua aposta é a da fusão PC-game-TV na sala, servindo de infra pra tudo o que a família faz. rodando software da microsoft, possivelmente em hardware da microsoft. há quem ache o contrário. há quem chute que breve, em 2010, a apple será maior do que a microsoft. e que steve jobs, ao invés de bill gates, vai ser a atração de davos. se não estiver na cadeia…
February 6th, 2007 at 10:08 pm
leia cringely desta semana.