eu não sei não, mas há horas em que o mundo dos negócios parece realmente muito estranho. como quando executivos de grandes companhias começam a falar de coisas como “banda larga pré-paga”, uma idéia exposta recentemente por Valérie Faudon, vice-presidente de marketing de programas da Alcatel, baseada em pesquisa realizada com 3 mil freqüentadores de cyber cafés no Brasil, Rússia, Egito, Quênia, Índia, China e Malásia…
o que é pré-pago? é um modelo de serviço onde descarta-se a assinatura de um serviço que é “usado sob demanda e pago depois”, em favor de outro modelo, onde “se paga antes e se usa o crédito até ele acabar… ou se perde o dinheiro pago quando ele caduca”. o que é “banda larga”? pra mim, é conexão [primeiro] sempre ligada [always on] e [segundo] de boa velocidade em comparação com linhas discadas, a preço fixo, independentemente do uso que faço da “linha”. se ouço a KCSM [vá lá ouvir!], rádio de jazz de san mateo, o dia inteiro, o preço é o mesmo, no mês, do que se eu apenas tivesse lido meu emeio vez por outra.
simples, não? preço fixo, “alta” velocidade, sempre ligado, volume ilimitado. onde cabe, então, o pré-pago? o maior problema de acesso à internet das classes chamadas C, D e E dos países em subdesenvolvimento [aqueles que estão ficando com uma grande parcela da sua população cada vez mais distantes do mundo de “classe mundial”] é a inexistência de mecanismos sociais de acesso à rede, em função da incompetência, falta de visão, inoperância ou puro e simples descaso de seus governos.
se não há renda pessoal ou familiar para pagar banda larga, instrumento essencial para participar da rede, hoje, o problema de quem não tem deve ser assumido como prioridade essencial pelos governos de seus territórios. o problema é que muitos destes territórios são semi-países, onde os governos funcionam muito mais para arrecadar impostos do que para distribuí-los como serviços essenciais, principalmente aos mais carentes. que continuarão mais carentes e que, por sinal, ficarão cada vez mais carentes.
tem gente que já desistiu dos governos destes semi-países em subdesenvolvimento e está querendo que seus pobres paguem por serviços que deveriam ser, para eles, instrumentos para o crescimento pessoal, econômico, social e cultural. há que se retirar pelo menos a malásia do lote: lá, ao contrário do brasil, ainda há políticas públicas de universalização de acesso e quase 40% da população [ao contrário de cerca de 10%, aqui] pelo menos estão na rede, mesmo que não seja em banda larga.
nos semi-países em subdesenvolvimento, a falta de políticas públicas de inclusão digital pode até levar seus mais pobres habitantes a aceitar um “modelo” de banda larga pré-paga. eu só quero ver como vai funcionar, considerando os modelos bizantinos de tarifação das empresas de telefonia… no mundo civilizado, onde os governos fazem bem mais do que arrecadar impostos, há e haverá políticas que transformarão os cidadãos todos em seres de primeira classe, capazes, quando tiverem meios reais de compra, oriundos de sua capacidade de transação, a pagar por sua banda larga.
para os criadores de planos de negócios, é bom lembrar que governo, ao contrário do que parece no mundo em subdesenvolvimento, não é só para arrecadar impostos e distribuir, em boa parte, como ineficiência ou corrupção. governo, quando funciona, é a melhor coisa que uma sociedade de primeira classe pode ter. quando não, é quase que certamente a pior.