arquivo noponto: 1001 noites na rede
dos meus arquivos na extinta revista eletrônica noponto, um artigo sobre a rede e o tempo -e nele, os nossos tempos e os tempos para fazer, ou não, as coisas- publicado em 18 de agosto de 2000, chamado 1001 noites na rede [se você andou lendo este blog recentemente, este texto está relacionado com este outro, sobre vida e morte de start-ups de tecnologia]:
Eu era menino em Arcoverde, em 1966, e os tempos, tirante a gente ter perdido a copa da Inglaterra, eram muito bons. O ano era dividido em três partes: férias, escola e férias, com os dias de escola compostos por aulas (pela manhã) e futebol (todo o resto do dia, incluindo parte da manhã). Eu não lembro, mas deveria ser um fenômeno futebolístico inusitado pois, dono do campo e da bola, mal conseguia jogar no gol, onde, no sertão do Nordeste, não nasce nada mesmo.
O tempo foi se acelerando e acabamos na era do conhecimento, onde os economistas estão nos convencendo que o recurso escasso é a atenção -não devem estar levando em conta a atenção que dezenas de milhões dedicam aos programas de domingo à tarde na TV. Ou então entendem que o entretenimento do povo brasileiro é dar um reset na vida depois da macarronada com galeto-de-tonel. Sem paciência para a TV e sem tempo para mais nada, resolvi por meu tempo em ordem e tomei um bocado de decisões, que incluem situar o infinito temporal daqui a 1000 dias - até porque são as 1001 noites que tornam poético o título deste artigo.
Minha escala começa em segundos, passa para horas e acaba em dias, sempre em potências de dez, e define quanto tempo se gasta - e eu gasto - com coisas da internet e da nova economia. 1 segundo é tempo máximo para uma página começar a carregar no browser e também o tempo gasto varrendo seu conteúdo, na diagonal, para ver se merece 10 segundos de atenção. 10 segundos é o tempo, também, dedicado a cada email que aparece: a trezentos deles por dia, no meu caso, me deixa uma hora no PowerBook, clicando delete e ganhando uma lesão de esforço repetitivo.
10 segundos é quanto custa chamar atenção de alguém para alguma coisa: se os primeiros dez segundos não seduzirem, passa-se para o próximo, que tem outros dez para introduzir um plano de negócios, no qual se gasta dez segundos para ler e entender o primeiro parágrafo do resumo executivo. Se passar no teste, ganha mais 100 segundos para se entender o negócio, proposta ou seja lá o que for…
Uma hora é o tempo destinado a qualquer parte de qualquer coisa, por dia. Se não couber em uma hora, outro alguém (que não eu) vai ter que fazer. Aliás, qualquer reunião de mais de uma hora é um inferno, as pessoas ficam se repetindo e, como ninguém dedica mais de uma hora a nada, mesmo, quem se lembra mais do que aconteceu há mais de uma hora?… Isso torna as reuniões ainda mais infernais, pela necessidade de se repetir o passado para os que estavam dormindo, nunca acordaram ou, simplesmente, estavam, na hora da reunião, dedicando sua hora a outras coisas mais produtivas…
Dez horas é tempo suficiente para fazer alguma coisa de útil: as coisas que podem ser feitas podem começar a ser feitas em dez horas. Ou então não vão ser feitas nunca. Dez horas é um dia, menos nos start-ups de informática, onde o dia de trabalho começa as 8 da manhã e acaba à meia noite, zipando dois dias em um, eficiência e economia típicas dos novos tempos.
Depois de um dia vêm dez, tempo suficiente para se ter uma idéia e criar o start-up que vai botá-la no ar e “mudar a nova economia de uma vez por todas”. Aliás, a quase totalidade dos planos de negócio das empresas da nova economia (que, como já vimos, só vão ganhar 10 segundos de atenção) não levou nem dez dias entre idéia e empresa. Deve ser por isso mesmo que tanto capitalista jogou dinheiro no mato: na ânsia de pegar os melhores negócios, ouviram muita gente por mais de dez segundos, no que se contaminaram pelo vírus mutatis mundi, que tem como consequência uma vontade irresistível de torrar dinheiro.
O próximo deadline são cem dias: isso é pouco mais do que os três meses usados para aferir as empresas americanas que têm ações na Bolsa, o “quarter” lá deles, traduzido para o português, por algum recém-egresso de um MBA, por quartil… Cem dias, onde solidão é a última coisa que você vai conseguir se estiver pilotando um start-up, é o prazo prático para mostrar que sua brilhante idéia pode levá-lo, e ao investidor, a algum lugar. Ou isso ou… mas não se preocupe: Sam Walton faliu mais de dez vezes antes de começar a ganhar dinheiro com o Wal-Mart e, depois, se tornar o homem mais rico do mundo!
Finalmente, o infinito: nele, ou em 1000 dias (o que acontecer antes), se seu negócio de internet ainda existir, pode estar em dois estágios. O pior caso é estar faturando uns 1 milhão por ano: mesmo que esteja dando algum lucro, você ainda tem um negócio de subsistência e provavelmente não irá muito mais longe. Não deveria nem ter passado dos cem dias mas, já que chegou até aqui, venda. Rápido. E comece de novo ou se lance num novo negócio, como dar cursos de 100 minutos sobre como ficar rico na internet. Lembre-se de interessar os alunos logo no começo da primeira aula… eles só vão lhe dar, no máximo, 100 segundos para decidir se o curso vale a pena ou não. Logo, nada de “satisfação garantida ou seu dinheiro de volta”.
No melhor caso, seu negócio mudou a rede e você está faturando os tubos, além de passar a vida em aviões e celulares, gastar 1000 minutos por dia em reuniões - a maioria das quais com gente estranha, às quais você diz os mesmos primeiros dez segundos de porque estamos aqui, os mesmos 100 segundos do que faremos depois, enquanto reza para N. S. do Perpétuo Socorro, ou um mega-temporal em São Paulo, o que chegar mais rápido, acabar a reunião antes do relógio bater os 10000 segundos…
Tanto quanto o nosso compadre da informática de subsistência, claro que você deveria ter vendido antes de chegar nesse ponto. Pois acabou deixando aquela namorada toda reboculosa para seu melhor amigo… que só deu, mesmo, 10 segundos pr’essa história de internet e está azeitando o eixo do tempo dia sim, outro também, lá no Acaiaca…