entrevista: caderno aliás, n’o estado de são paulo
semana passada, Flávia Tavares e Mônica Mani, d’O Estado de São Paulo, me ligaram para falar de YouTube e coisas mais, como o significado de googleTube para o brasil, acesso a banda larga, tv digital no brasil… o resultado -que ficou legal, muito mais por competência das entrevistadoras do que do entrevistado- saiu no caderno aliás de domingo passado e o texto completo está repetido abaixo [via debrasilia.com].
Enfim, uma internet de mão dupla
Sucesso do YouTube prova que o usuário conseguiu o que queria: gerar e compartilhar conteúdo
Flávia Tavares e Mônica Manir, d’O Estado de S. Paulo, Vida digital
Silvio Meira tem várias janelas abertas ao mesmo tempo na cabeça. “E quem não tem?”, diria você. Acontece que Meira faz conexões futuristas com elas. Ao acompanhar o desenvolvimento das retinas artificiais, já vislumbra uma melhor que a do olho humano - com zoom inclusive. Ao seguir de perto a compra do YouTube pelo Google nesta semana, percebe um terceiro ciclo da internet, a dos grandes conglomerados. Mas vai além. Imagina celulares mandando imagens diretamente para um site de compartilhamento de vídeo, como o YouTube. “Isso só não acontece agora porque as operadoras pensam apenas em conta telefônica”, ressalva.
Professor da Universidade Federal de Pernambuco, consultor do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R), colaborador periódico de “coisas” de tecnologia, mentor e feitor de um blog e de um site, Meira se indigna com quem pensa pequeno. Ou melhor, com quem pensa minúsculo, porque é assim que entende o investimento do Brasil em tecnologia de informação. “Se o cara não tem o que comer, acham que não precisa de internet. Pois eu digo que ele talvez não tenha o que comer justamente porque não tem internet.”
Com a janela aberta para o bairro da Casa Amarela, no Recife, “mais uma população excluída digitalmente”, este paraibano de 51 anos deu entrevista para o Aliás antecipando o que pode sobre a fusão dos líderes Google/YouTube e criticando o que deve aos que se mantêm na rabeira dos novos tempos.
O YouTube vale US$ 1,65 bilhão?
Tem algo que Google não conseguiu fazer, apesar de toda a proficiência tecnológica de seus laboratórios: criar comunidade, marca e reputação na área de vídeo. Cada vez mais gente vai para o lugar onde já tem muita gente. Isso também explica o fracasso do Orkut fora do Brasil. YouTube é a maior comunidade de vídeo do planeta, tem cerca de 50% do tráfego de vídeo do mundo, enquanto MySpace fica com 25% e Google Video, 10%. Vale lembrar que Yahoo!, Microsoft, talvez eBay, mas principalmente MySpace poderiam comprar o site de vídeo. Google, que vale US$ 140 bilhões na bolsa de Nova York, gastou 1% disso no negócio. Eu não pagaria US$ 1,65 bilhão, mas para Google é uma compra defensiva.
Antes de fechar o negócio, o YouTube acertou com a Universal, e o Google com a Warner e a Sony. A fusão vai monopolizar a exibição de vídeos comerciais?
A qualidade dos vídeos do YouTube não é exatamente alta para transmissão de filmes inteiros. Mas pode-se usá-lo como canal privilegiado de distribuição de trailers, animações curtas, making ofs, o escambau. Agora, se não está claro como YouTube vai ganhar dinheiro, muita gente sabe como vai perder. Deve queimar, neste ano, US$ 100 milhões em banda e tecnologia para suportar a quantidade absurda de vídeos que trafegam no site. E um número considerável deles está sujeito a disputa sobre a propriedade daquela coisa. Um dos departamentos mais agitados do YouTube será o legal.
Como ficam os processos com relação à invasão de privacidade?
O YouTube é mais um sinal de que a privacidade acabou. Quando vemos uma pessoa com um celular, não sabemos se estamos sendo filmados… Essa produção precisa vazar para algum lugar, e o YouTube é uma via de escoamento. Por quanto tempo terá sucesso? Ninguém sabe. Daqui a algum tempo, posso filmar alguém com o meu celular, apertar um botão e esse negócio vira imediatamente um vídeo numa comunidade de compartilhamento acessível pela internet. Isso não acontece tão rápido porque a cabeça das operadoras só pensa em conta telefônica. Se lembrassem que há uma convergência digital aí…
Além das operadoras, que outras mídias podem se aproveitar de conteúdos gerados pelo usuário?
Os blogs. Há 50 milhões de blogueiros só nos EUA. Como os americanos são sempre metade do mercado do mundo em qualquer coisa, podemos assumir que existem de 100 a 200 milhões de pessoas na internet fazendo algo mais do que ler site e mandar e-mail. Dez anos depois de ter sido disponibilizada como um paradigma de interação humana, a internet começa a servir para o que foi criada, ou seja, como infra-estrutura de um mecanismo de expressão pessoal e social. Quando alguém cria um blog ou um fotoblog ou compartilha sua música em sites de troca, ainda que pirata, há uma economia, uma cultura e, conseqüentemente, uma sociologia se movimentando nesse ambiente de expressão.
Com essa transação, o YouTube corre o risco de sofrer a censura que o Google aplica no seu site?
Entre suas metas, Google planeja acordos com governos não necessariamente amigáveis. Só espero que não ocorra autocensura, como já acontece nas operações na China. Parece também um mecanismo de competição inteligente dos chineses. Dizem para o Google não responder a certas coisas, mas autorizam o Baidu, seu site de busca, a fazê-lo. Baidu, que significa Google em chinês, tem 60% dos usuários no país. Com os mecanismos de geração de riqueza de que dispõe, em 20 anos a China será mais importante na internet do que os EUA. É bom olhar qual é o site chinês de compartilhamento de vídeo.
O usuário do YouTube deixará de fazer parte de uma comunidade independente para se juntar a um negócio milionário como o Google. Isso pode afastá-lo?
Há algum tempo, Rupert Murdoch, da Sky/Direct TV, comprou o MySpace. De lá para cá, o site só aumentou seus usuários com uma performance cada vez maior. Existe alguma pessoa mais odiável do que o Rupert Murdoch? No entanto, a compra do MySpace não foi interpretada como “vou dominar esse negócio”. Em alguma hora, essas infra-estruturas da rede vão sendo absorvidas por megaconglomerados como parte das suas operações. Não devemos ter a ingenuidade de pensar que um negócio criado por dois caras independentes e que se transforma num mega-sucesso precisa continuar a ser como foi no começo porque, sem remuneração, deixa de servir a todo mundo.
O desafio do YouTube, hoje, seria se tornar imprescindível?
Para qualquer negócio intermediário, como YouTube, a coisa é se tornar tão importante que as comunidades de uso e de prática ao seu redor não precisam estar contentes, mas resignadas a perder alguma coisa por causa dele. Se olhar para a comunidade formal dos produtores de vídeo, ela está resignada a perder uma parte da receita que tinha porque YouTube tem 150 milhões de usuários registrados.
Google é uma ferramenta de pesquisa imprescindível?
O melhor engenho de busca de blogs é Sphere, não Google. De busca científica é o Scirus, que tem milhões de resultados. Google domina não o nicho, mas o mercado de busca genérica. Não se pode ser especialista no todo. Então, existe aquele que domina 60% do grande público e existem os especialistas, que talvez sejam, olhando numa proporção pelo tráfego, mais bem remunerados do que os mega-sites.
A ascensão do YouTube reflete uma ascensão do apelo visual?
O ser humano é áudio-visual desde sempre. O problema é que não havia a capacidade de exprimir e apreciar a curiosidade pelo outro em rede, porque não havia infra-estrutura. O YouTube é o que é por causa da banda larga. Já imaginou YouTube com linha discada? A banda larga é um fenômeno dos últimos quatro anos. Nos EUA, entre os 70% que têm internet em casa, 60% possuem banda larga. No Brasil, há 3 ou 4 milhões de conectados a ela, o que é patético.
O Brasil é tão ruim de inovação?
Não temos a cadeia de valor para pegar resultados em ciência e tecnologia, combinar com a capacidade de botar no mercado e criar novos produtos, processos e serviços. Pouquíssimos inovadores brasileiros estão no mercado internacional. O mercado de inovação é global. As soluções são de classe mundial, buscam resolver o problema independentemente da geografia. E assumir riscos no Brasil, onde a dívida pública bota os juros na estratosfera e transforma qualquer outra operação de remuneração de dinheiro na mais arriscada do planeta, não é razoável.
A união do Google com o YouTube diz o quê para o brasileiro?
Do ponto de vista da realidade geral do brasileiro, a exposição que esse evento vem recebendo é completamente desproporcional ao problema do Brasil digital. Quem são as pessoas incluídas aqui? Dados do Comitê Gestor da Internet mostram que, no último mês, menos de 10% da população brasileira usou a internet. Desses 10%, cerca de 20% usa banda larga. Somos excluídos digitalmente. Veja o bairro da Casa Amarela, onde moram 200 mil pessoas numas 50 mil casas. Não deve ter internet em 5 mil delas. Não resolvemos o problema do acesso à internet, porque deixamos que as pessoas tentem resolver sozinhas. Mas elas não têm renda pra isso. E também não resolvemos a questão do acesso à internet comunitária. As escolas deveriam ser centros de inclusão digital para toda a população.
As imagens do debate para presidente de República presentes no YouTube farão diferença para os rumos da eleição?
Não. Eu vou ver, vou achar engraçado ou não, vou criticar ou não, vou mandar o link para 10 pessoas que já se decidiram em quem vão votar. Mas, quando observamos a campanha eleitoral em qualquer país, temos de olhar para as classes C, D e E. Para essas pessoas, a utilidade do YouTube é zero. O mesmo ocorre com os blogs, eles não atingem a vasta massa de indecisos.
Quem atinge é a TV.
Sim, ela atinge mais de 90% da população.
É por isso que o Boni (da Rede Globo) disse, num encontro na MaxiMídia, que nada vai mudar na TV nos próximos 30 anos no Brasil?
Ele está exagerando. Quando se olha para frente num certo período de tempo, deve-se duplicar esse tempo e olhar para trás. Há 60 anos, não havia TV no Brasil. Daqui a 30, poderemos ter todos os celulares com televisão. O mundo mudará completamente. Vou ver clipes no ônibus, no carro, no metrô, etc. O celular é um bicho perigoso porque tem um teclado que permite interação. E, se houver televisão no celular, também haverá internet. Combinaremos uma máquina que manda coisas pra mim e eu posso mandá-las de volta ou redirecionar para outros lugares. Televisão digital já tem o potencial de mudar muito.
No Brasil, as pessoas têm mais acesso ao celular do que à internet. Se ele for o veículo para esse tipo de informação, temos uma perspectiva bem mais otimista?
Sim, mais, muito mais.
Qual é o seu prognóstico quanto à TV digital no Brasil?
O que está planejado é cobertura nacional até 2013. Ter TV digital significa trocar transmissores, antenas, receptores. A maior parte da produção que está sendo feita dentro dos estúdios de TV já é em formato digital. Mas a estrutura precisa ser totalmente trocada. E tem a questão da interação. Eu poderia sobrepor numa novela, por exemplo, um desenho qualquer que destaque uma camisa vestida pelo ator. Aí apertaria o botão para comprar aquela camisa numa loja qualquer que patrocine a novela. Quando isso chegará ao bairro da Casa Amarela? Sim, vai acabar acontecendo, mas levará muito tempo. Se a evolução da TV digital der certo como interação, será uma revolução. A TV será o mecanismo de inclusão digital.
October 19th, 2006 at 2:02 pm
Sobre o upload de video via celular, o próprio YouTube já tem o serviço:
http://youtube.com/my_profile_mobile
October 20th, 2006 at 8:52 am
O YouTube tem o serviço, mas o problema é o custo.
O custo atual de uma conexão via celular no Brasil gira em torno de R$ 5,00 / MB. Ou seja, um pequeno trecho de filme sai a uns R$ 10,00. Quem está disposto a pagar isso?