recordar é viver: eleições, de novo

em setembro de 2002, jantei com um povo em são paulo logo antes das eleições. havia gente de indústria e principalmente da indústria de TICs à mesa, e a conversa inteira girou e terminou na eleição. interessante é que, mudadas algumas variáveis, ela poderia ter acontecido, na mesma são paulo, nos mesmos 15 graus da noite de quarta passada, num jantar quase no mesmo lugar. nele, uma constatação -de que a melhor amiga de qualquer tentativa de política industrial, no brasil, é sempre a oposição- e uma diferença: ninguém da mesa de 2002 queria segundo turno e quase todo mundo da mesa de 2006 achava que sim, deveríamos ter um. a seguir, o texto original de 2002:

São Paulo, noite fria de setembro, culpa do enlouquecimento global. À mesa, empresários de informática e telecomunicações e um candidato (a colunista), a conversa girando em torno do fim do passado e do começo do futuro. Do fim dos bons contratos de telecom e de um começo que se espera, mas não veio ontem, hoje e parece que não virá tão cedo. Os empresários estão no negócio há muito tempo, desde a reserva de mercado. O candidato a colunista os conhece desde sempre, mas é pouco rodado, e promete que vai só ouvir. Noite a dentro, melhor ouvir. Quem não sabe ouvir nunca aprende nada, nunca descobre as perguntas certas.

Pelo andar da carruagem de conversas, a eleição ainda ia ser prato principal e sobremesa. Por enquanto, na entrada, a crise ganha. Não a crise tópica do dólar, mas a crise mundial do excesso de investimento em informática e telecomunicações. Um dos presentes dá o veredicto: as pontocom acabaram de vez com a Time-Warner assumindo o controle operacional da AOL. A mesa concorda, e outro diz que isso tava escrito desde o começo dos tempos. Ninguém discorda alto, mas todos pensam que é fácil prever o futuro depois que ele acontece…

Alguém pergunta porque as empresas de telecomunciações européias, principalmente, pagaram tão caro pelas licenças 3G: será que elas não tinham nenhum sociólogo ou economista no time? Não viram que o preço que estavam pagando por usuário, mais os recursos necessários para montar a infra-estrutura, serviços e aplicações, eram irrecuperáveis em qualquer prazo financeiramente são? Todos concordam que as empresas de telecom européias estavam piradas, à época. Só que o colunista ouviu –à época- pelo menos um deles defender que o Brasil, ao invés de licitar SMP e outros serviços simples, deveria ter ido direto pra 3G. As teles brasileiras devem estar agradecendo, até hoje, ao conservadorismo da Anatel…

Um dos empresários é fornecedor das teles nacionais. Crise é com ele mesmo. Tem histórias e números para contar, dívidas a receber, conhece histórias semelhantes de muitos outras fontes, teve que demitir e acha que não demitiu tanto quanto precisava, não sabe se seu negócio sobreviver. Cada demitido diminui sua empresa um pouco mais, ele já teve episódios de pressão alta, taquicardia… Todos falam ao mesmo tempo, os problemas são mais ou menos os mesmos e uma voz, mais grave e alta do que as outras, põe toda a culpa “neste governo que aí está”… Aí a coisa vai mesmo cair no terreno eleitoral. Mas, antes disso, parece ser hora de fazer um balanço do que o governo não fez: aliás, pra mesa, o governo começou lá atrás, com Itamar.

A mesa conclui que o governo não teve política industrial. Alguns falam mal do governo agressivamente, da sua incapacidade de ouvir e criar políticas de fomento à empresa nacional, principalmente à empresa nacional de base tecnológica… Alguém lembra o sucesso da Embraer, mas ela é a exceção que justifica a regra, uma empresa ao invés de um setor da economia. Fala-se da política de informática, de como o setor se desarticulou, de como empresas (fabricantes nacionais) desaparecem, uma atrás da outra, sem deixar rastro… fazendo com que uma parte de seus executivos migrasse para multinacionais instaladas no Brasil, meras “maquilas”, segundo quase toda a mesa. Política de informática, diz um, é feita em todo canto do mundo com decisões de governo, de compras de governo, de pensamento de longo prazo, de fomentar, talvez a um custo mais alto, o desenvolvimento local de competência internacional, que inicialmente pode ser de menor qualidade e menos competitivo, mas onde o país arrisca, quase sempre, criar uma indústria inteira no longo prazo. Os rostos, ao redor da mesa, são de “é isso mesmo”…

Alguém lembra, então, que as compras governamentais, aqui, são neoliberais… neoliberais não, diz outro, são criminosas! Aparece, então, uma lista de compras, frustradas ou não, do governo e suas empresas, da Petrobrás ao Banco do Brasil, de ministérios e governos estaduais e, claro, o FUST. Alguém de São Paulo lembra que, até agora, os atores governamentais não tinham entendido ainda qual era a preocupação de alguns setores políticos e da indústria brasileira no caso do FUST (de usar o edital como, também, agenda de política industrial) e que a coisa toda corre o risco de continuar assim per omnia secula… Aí é que não, diz um: “no governo Lula”… e a mesa presta um pouco mais de atenção a um dos cada vez mais numerosos e auto nomeados porta-vozes do que um quase certo governo Lula pensa e/ou fará. O certo é que nosso amigo não consegue demonstrar que esteja falando de um projeto de política de informática acabado, mas uma boa parte da mesa escuta, avaliando o “novo projeto” que pode ser só do nosso “porta-voz”…

Aí alguém pergunta que apoio a indústria de hardware ou de software teve em seus (poucos) embates por uma política nacional, ou por um arremedo dela, que fosse, nos últimos anos… A rede de políticas e políticos começa a ser descrita e, desde o início, fica claro que o governo podia até ter uma política, mas os atores nacionais estavam, o tempo todo, na última década, conversando e obtendo apoio da oposição, como ficou mais evidentemente mostrado no caso do FUST, onde um dos principais interlocutores foi o Sérgio Miranda, do PCdoB de Minas Gerais… O PSDB, apoiado por muitos dos empresários à mesa, nada fez em prol do que se convenciona chamar de “interesses nacionais”, algo tão caro à mesa –inclusive por ser seu negócio, gerar empregos, lucros e fundos para financiar campanhas.

Somando todos os fatores, alguém resume, os interesses da indústria nacional tecnologias de informação e comunicação, se é que ainda há uma, foram representados, na década, por uma oposição em quem não votamos, de quem desconfiamos, com quem nunca conseguimos nos aliar. Talvez devêssemos fazê-lo agora, diz outro. É… pelo menos seríamos traídos, se fôssemos, por um novo grupo, eu estou cansado de levar porrada dos mesmos o tempo todo… Sim… mas seria algo meio às cegas, não? Não, replica um… eu me dou muito bem com fulano, estou tendo reuniões quinzenais com sicrano, diz outro… há ligações por todos os lados, conclui o colunista…

A mesa quer alianças de resultados, para o que realmente interessa: apoio para sobreviver e crescer, o que ela acha, talvez com razão, ter faltado no governo que se encerra. E até os pessedebistas estão achando melhor antecipar o segundo turno para o primeiro, com medo que o pagamento de seus títulos fique ainda mais difícil, temendo que possa haver, num quebra pau de verdade entre apenas dois lutadores, um racha nacional de complicada reconstrução. É o dois em um: vamos resolver logo a parada, pois já há toda uma indústria para reconstruir. No cafezinho, alguém diz que governo é sempre governo, ainda mais no Brasil, que a gente vai se arrepender… e daqui a quatro anos, quando fizermos as contas, vamos ver que nossos principais aliados, no mandato, foram… a oposição.

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