arquivo noponto: o fim de um dos fins do papel

durante dois anos, entre 2000 e 2002, escrevi exatamente 100 colunas em um dos melhores “movimentos” que o brasil já experimentou, na rede, a revista eletrônica NO., sob direção de marcos sá corrêa. até um tempo atrás, o site ainda estava no ar, mas parece que desapareceu para sempre, o que me levou a pensar em armazenar, aqui, aquelas colunas todas, algumas apenas de valor histórico e outras tão atuais que eu poderia tê-las escrito hoje. como a primeira da série, uma espécie de profissão de fé na convivência pacífica da rede e do papel, publicada em 28 de abril de 2000, chamada o fim de um dos fins do papel:

Não passa um dia em que não haja uma frase de efeito, em algum lugar da mídia, sobre o fim do papel, da tinta e do livro. Só que, ao invés de um fato acontecido ou iminente, anuncia-se na verdade um debate, quase briga, quando bibliófilos estão por perto. Sem falar nos fabricantes de papel e plantadores de eucalipto.

Papel e imprensa andam juntos há 500 anos, mas há uma impressão de que a imprensa estaria saindo do papel. Principalmente quando se criam constelações de competência para fazer notícia e opinião virtual, literalmente, sem nenhum registro a ser vendido em banca. Seria isto mais um augúrio do tão esperado fim do papel?

Nem tão cedo. Nem os mais radicais adeptos das telinhas ficam à vontade lendo on-line. Ainda é difícil tomar notas, grifar texto, circular parágrafos de interesse e ligá-los a outros, noutras páginas. Dobrar bordas do papel para criar marcas, nem pensar. Este papel, que o papel exerce insuperavelmente, hoje, é o do papel-pra-ler.

Há também o papel-pra-escrever, o papel-pra-armazenar, para embalar. Apesar dos laptops e Palms, tomo notas em cadernos, concretos, de papel real. Desenho, faço gráficos, expresso modelos, meus e dos outros, em papel, enquanto converso. Este papel-pra-escrever vai demorar, também, muito tempo para ser substituído. Quer ver, preste atenção nas pessoas tomando notas em Palms ou coisas do tipo.

O papel para armazenar também tem uma chance. Papel e tinta de qualidade duram séculos; já CDs de qualidade comercial começam a se degradar em menos de 15 anos. Em 50 são inúteis, mesmo que tenhamos preservado os formatos em que foram escritos, um dos problemas adicionais de armazenamento abstrato de informação. Mais de um projeto já ficou sem história porque o formato e dispositivos usados para guardar informação desapareceram. Ou quase: minha tese de doutoramento estava numa fita de 9 trilhas ICL, inglesa, gravada no sistema operacional EMAS, em 1985. Joguei fora, pra poupar raiva… é mais fácil digitalizar a cópia de papel.

Mas uma coisa é certa: o papel-pra-transmitir, que leva informação entre pontos, vai se tornar relíquia em pouco tempo. Os argumentos são financeiros, temporais e ecológicos. Uma revista impressa nos EUA custa pelo menos 100% a mais no aeroporto de São Paulo e, se chegasse em Campina Grande, talvez custasse 200% a mais. A maioria, claro, nem em São Paulo chega. Ninguém precisa ser um gênio para imaginar que tal sobrepreço não fica com a banca, mas com o transporte 11 aéreo. Papel pesa, e muito: enviá-lo por via aérea é uma forma segura de mandar o preço para o espaço.

E revistas têm que vir de avião, para ter algo a ver com o presente. Com os jornais é ainda pior: não há como ler a edição em papel do Asahi Shimbum em São Paulo, no mesmo dia. Muito menos em Lençóis, BA. E jornal diário só interessa no mesmo dia ou então quando vira história. Entre os dois, é um recurso, anti-higiênico, para se embrulhar peixe. O que é, me parece, uma figura de linguagem, pois faz anos que não vejo um surubim nas páginas policiais.

E o papel-transmissor não fará falta se as bancas imprimirem jornais e revistas, sob demanda, para quem quiser lê-los no seu formato de tinta, cola e celulose. Todas as bancas, então, poderiam ter todos os jornais, revistas e, talvez, livros do mundo. Escolha o título, pague e imprima na laser colorida da banca. Na hora, que nem caldo de cana. Quem não quiser tanta qualidade imprime em casa. Vai acontecer no futuro próximo, antes dos livros eletrônicos. Que parecem o Brasil: há anos são o futuro (do texto, no caso).

E a discussão principal não é o fim ou não do papel e sim a qualidade e utilidade do que vai estar nele, real ou virtual, daqui pra frente. O papel, real, vai conviver com a imprensa e a informação por muito tempo. Mas boa parte da produção está indo para o virtual e eliminando o papel-transmissor. O que é bom pra todos, porque leva notícia e opinião para todos os cantos do mundo, num piscar de olhos. Ou num clicar de mouse…

2 Responses to “arquivo noponto: o fim de um dos fins do papel”

  1. Davi Says:

    Quanto à existência da revista eletrônica www.no.com.br, pensei que ela tivesse tido o seu conteúdo ligeiramente remodelado e se transformado na revista eletrônica www.nominimo.com.br. Ou não?

    Ao menos é uma nova revista que continua o legado da no., com o editor Marcos Sá Corrêa…

    links:
    http://www.nominimo.com.br/
    http://nominimo.ibest.com.br/

  2. Silvio Meira Says:

    realmente, davi… uma turma que estava na noponto, depois do fechamento do primeiro negocio, foi tocar o nominimo. muitos outros, como o ancelmo gois, eu… saimos e fomos tocar nossas vidas. do fim do noponto ate a semana passada, fiquei entre meus projetos de engenharia de software, empreendedorismo e inovacao e os sites meira.com e este blog. ai entrei no g1. ancelmo foi pro globo e outros foram tocar outras paradas…

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