resultado: US$2 bllhões. negativo. só?…
segundo um relatório publicado pela abinee, tratando do primeiro semestre deste ano, pelo menos um setor da economia nacional está apresentando taxas de crescimento que deixam a china com cara de brasil: a importação de eletro-eletrônicos, que cresceu mais de 30% em relação ao mesmo semestre no ano anterior. a exportação dos mesmos produtos também cresceu bem mais do que o brasil, ao redor de 16%, mas é aquela coisa… de que adianta crescer 16% na saída se a entrada, que já era quase 100% maior, cresceu mais 30%?… é a teoria da relatividade aplicada à economia: não adianta crescer muito, ou rápido, tem que crescer mais do que as coisas com as quais se compara.
nos mais de US$5 bilhões de déficit da balança eletrônica só do primeiro semestre, US$2 bilhões estão no item semicondutores, que o brasil não fabrica em escala para a vasta maioria das coisas que têm eletrônica embutida. isso certamente vai ser mais um alento à velha teoria da substituição de importações que vez por outra assola o país, pois claro que, se temos um mercado de semicondutores de US$4 bilhões por ano, porque não os fabricamos todos aqui e economizamos estas divisas?…
há muitas respostas, mas uma bem razoável é a seguinte: o brasil não consome nenhum conjunto de componentes eletrônicos em escala que justifique produzi-los aqui, em função das equações de custos do país, e perante a inexistência, na prática, de indústrias sofisticadas que façam design de produtos no país… mesmo que “o resto da produção” seja exportado. pra se ter uma idéia do tamanho do problema, o valor adicionado pela indústria de semicondutores dos eua está entre 50 e 60 bilhões de dólares/ano, gerando 200.000 empregos, ampla maioria dos quais engenheiros. entre 1985 e 2000, os eua tiveram uma balança comercial negativa em semicondutores, e só nos últimos cinco anos a coisa mudou, em parte graças ao aumento de volume das exportações de wafers de silício, onde estão ou estarão os chips que, em parte o país importará depois de finalizados na ásia, que é onde são feitos em escala mundial e a custos que ninguém vai conseguir bater [especialmente com o dólar e impostos daqui, hoje]. há um relatório recente e importante para ser lido, sobre o tema, do GAO americano.
a china, que importou US$20 bilhões de dólares em semicondutores dos eua em 2005 [e outros US$15B da coréia, pra citar só dois] é o maior exportador mundial de bens de tecnologias da informação, à frente dos eua [US$180B contra US$149B, em 2004]… e só teve seu primeiro superávit de balança comercial em tecnologias da informação e comunicação, como um todo, em 2002 [US$3B]; mas já em 2004, como as importações foram de US$149B, o superávit foi de US$31B. isso não foi conseguido sem um plano de país, de longo prazo, sem estratégia, sem levar em conta propriedade intelectual [ou a ausência dela], sem pensar em que fábricas instalar e onde, sem subsidiar nada, muito pelo contrário. rolou isso tudo e muito mais.
o danado é que aqui, ao invés de fazermos nós mesmos nossos planos de longo prazo e os seguirmos com recursos e afinco, toda vez que aparece algum executivo da intel, amd ou seja lá mais quem produz chips, a pergunta do governo e da imprensa é a mesma: vocês vão instalar uma fábrica aqui?… a resposta também é a mesma: não. aliás, nem sempre: em sua última viagem ao brasil como ceo da intel [e sabendo que não ia ter que enfrentar aquilo de novo] eu vi craig barret responder a um alto oficial do governo: …see, nós fizemos um levantamento mundo afora, e a china tem uns planos pra ter tais fábricas lá. uma fábrica destas é muito cara, as you most certainly know… e os chineses vão offset os custos desta nossa fábrica lá, que vai sair por uns quatro bilhões de dólares, em two billion dollars. is that a game brasil is prepared to play yet?…
no, we are not. the end. curtain closes. e tome gente a falar sobre substituição de importações, como se estivéssemos em 1950, como se não houvesse fronteiras livres e importabandistas pra coisas pequenas, leves e de alto valor agregado, ao invés de fazer uns planos de importar tudo o que não sabemos fazer ou que não podemos fazer aqui em níveis mundiais de qualidade e custo e, a partir daí, construir e exportar, em eletrônicos, não os pífios US$5B, que são hoje 3% da china, mas US$50B. estaríamos muito melhores, então, do que estamos hoje, mesmo que importássemos US$30B de chips… enquanto não chegamos lá, veja o gráfico abaixo, que está neste estudo da oecd sobre a indústria eletrônica na china. e vá lá ver o estudo também. é pequeno e muito bom.
