e-du-business?…
há quem não goste de aulas. há quem não consiga assistir aulas e tomar notas ao mesmo tempo [assim como há quem durma se não tomar notas]. há quem, por ter estado na balada ontem à noite, não consiga prestar atenção na aula, mesmo que queira. e ainda há muita gente que não vai entender a aula mesmo. na minha opinião, na maioria das vezes, porque a aula é danada de ruim.
pra compensar estes fatores, robert schrag, professor do departamento de comunicação da ncsu, avisou a seus alunos deste termo do ano letivo dos eua [que começou semana passada] que suas aulas [em formato mp3] estarão disponíveis on-line para os interessados, por módicos US$2.50, menos do que seus alunos pagam por uma cerveja. isso pra quem quiser ouvir a aula de novo. até agora, 5 alunos pagaram pra ouvir.
o negócio nem parece tão bom assim: schrag gasta mais tempo pra gravar e editar as aulas, paga US$1.50 pro site de distribuição, por download, e fica com míseros US$1. tem aluno reclamando; a universidade não se manifestou. eu acho que não é negócio”: melhor gravar e deixar em algum lugar, de graça, e em vídeo. aula só em áudio é uma tragédia. aliás, a maioria das aulas, na minha opinião não merece ser vista nem revista, pelo menos na tradição universitária brasileira.
aqui, gastamos 60 horas, numa graduação de bom nível, praticamente “lendo” para os alunos o que eles deveriam ter lido [pois, afinal, devem ter sido alfabetizados antes de chegar à universidade] em casa, antes da aula, ao invés de irmos à universidade para discutir o que de interessante houver para ser debatido sobre o tema da aula. se não houver nada, melhor não haver aula… pelo menos não contribuiríamos, com nosso movimento, para o aquecimento global… se a aula do professor schrag for boa mesmo, será um debate sobre alguma coisa relevante. quem apenas ouvir, depois, terá perdido talvez a única oportunidade, no seu curso, de participar da discussão. deve ser por isso que as aulas estão à venda por tão pouco.
September 14th, 2006 at 8:57 am
oi Silvio: minha mulher, aos 46 anos, com nosso filho já trabalhando e nossa filha na faculdade, resolveu também fazer vestibular e está agora fazendo educação física, curso noturno. está enfrentando o curso com um nível de responsabilidade que não vi nos filhos (jovem é outro papo), volta da aula às 11, fica até 1 da madrugada revendo os assuntos, e negligencia sua profissão de consultora de vendas para dar conta das matérias durante o dia. mas como você tem razão! estou tentando ajudá-la em alguns assuntos abtrusos para ela (filosofia, pedagogia da educação, sociologia, e outros que tais) e não sinto que haja qualquer tipo de debate na sala de aula. apenas o professor(a) fala, passa xeroxes de textos para resumirem em fichas (imagine, tem que ser à mão, pois tem que mostrar, perde pontos se não fizer manualmente!), vão para as provas com a decoreba que for possível (ou cola mesmo). enfim, como eu mesmo não fiz faculdade (sou preguiçoso, larguei o estudo formal sem completar o segundo grau), agora é que estou tendo uma visão pessoal do negócio, estou boquiaberto. e isto numa faculdade particular que tem ótimo nível nesses testes aí do governo. não é atoa que existem tantas pessoas com curso superior trabalhando como garçon, etc. com certeza tiveram como professores pessoas que produziriam melhor para o país trabalhando também como garçons e outras profissões decentes, honestas e necessárias.
September 14th, 2006 at 9:47 am
por isso, pai, que eu fico com a mão na cabeça quando penso em exercer essa profissão. os atuais professores - claro que alguns se salvam - e muito menos os alunos têm noção do que é estar na sala de aula, do quê pode acontecer ali. no meu curso de faculdade passei por cadeiras que nada, simplesmente nada, contribuiram para minha formação atual. algumas fizeram a diferença sim, mas na maioria delas porque eu me interessei por aquilo e não porque tornaram aquilo ali interessante pra mim.
é a velha história estrutural, começa por uma criança como pedro, e não quando se entra na faculdade. vai entender o governo e suas campanhas tortas de educação, eu me sinto fatigada e não estimulada a ir pra luta, como já te disse.
pessoas como a mulher de joel podem estar aproveitando a faculdade, mas tem um monte de gente ali que está porque diploma está na moda. e aí? de que adianta o professor schrag colocar o audio dele no site? mais uma forma de vender educação? que tipo de mercadoria é essa? não discordo do mercado, discordo da forma como ele funciona e fico aqui ainda me questionando.
September 14th, 2006 at 10:09 am
Pois é… ! reflexos de um modelo educacional ultrapassado, que vêm desde a época dos Jesuítas (1549), no qual uma das idéias era catequisar índios no Brasil. Acontece que esse modelo permaneceu, e catequisou todos os brasileiros.
Nossa educação está em crise a muito tempo. Em recente congresso internacional de educação especialistas confirmam a gravidade do problema: “A crise na educação brasileira exige soluções a partir da escola. Conhecimentos científicos e tecnológicos aplicados em experiências nacionais e internacionais de sucesso demonstram que há saídas para a complexidade da aprendizagem escolar. Refletir e debater sobre essa problemática e suas soluções, eis a proposta – convocação aos educadores neste Congresso.”
Trabalho como professor e percebo que o problema é gravíssimo. Precisamos quebrar paradigmas no ensino, abrir os olhos e fazer coisas forá da sala tradicional como atividades culturais para contextualizar o que queremos ensinar. As instituições educacionais não abrem espaço e não demonstram interesse em mudar nada, pois só estão interessados no dinheiro dos alunos. Querem e criticam os seus clientes mas não se questionam do seu papel. Como poderemos competir então no futuro? que profissionais estão se formando?
September 14th, 2006 at 10:59 am
mas eu acho q todos têm q reconhecer sua responsabilidade nesta cadeia, inclusive o professor, que se supõe que tenha formação em práticas pedagógicas que contribuam com a agregação/motivação da equipe.
quantos dos professores tratam os alunos como um “igual”, não se supõem “donos da verdade” e tentam tornar a aula minimamente interessante?
eu ainda acredito q é neste espaço acadêmico q começa toda a transformação, ainda q a curto prazo tenha-se a impressão q o q se aprende lá não serve para nada (engano q será sanado c/o passar do tempo - ou não).
September 14th, 2006 at 2:26 pm
Há algum tempo vi em um documentário no Discovery sobre uso de novas tecnologias em educação que a Universidade de Duke, nos EUA, não só estimulava as aulas em podcast como também distribuia grátis para novos alunos um Ipod de 20Gb assim que ele entrava na universidade (o programa começou em 2004!) [http://www.wired.com/news/culture/0,1284,64768,00.html]. Se não em engano eles também ofereciam a infra para os professores gravarem e publicarem as aulas. Muita gente utilizava o aparato para enriquecer suas aulas, principalmente de línguas e música. No depoimento de uma aluna [video em http://www.ourmedia.org/node/139203] ela diz que usa o ipod que ganhou mais para uso pessoal do que acadêmico, mas que também usa para fins acadêmicos. Acho que, como você escreveu, não é um podcast de uma aula que vai revolucionar a educação, mas acho que existem possibilidades interessantes para enriquecer as aulas com esse tipo de coisa.
O mais interessante documentário (aí eu já não lembro qual universiade teve essa iniciativa) foi o uso de um aparelho parecido com um controle remoto (acho que cada aluno pagava $20 por um) que era utilizado para que o aluno interagisse na aula. Com ele o aluno podia, por exemplo, responder uma enquete (live!) que o professor fazia na aula e os resultados iam para o projetor, o que não funciona muito bem se você mandar eles levantarem a mão, principalmente pelo medo de errar diante da classe. Acho que esse sim é um método de inovar a aula em si e pode fazer diferença na maneira como os alunos aprendem.
September 14th, 2006 at 8:26 pm
A importância da Aula
Já cheguei a pensar que aula é um disperdício de dinheiro. Tanto material nas bibliotecas deixados de lado porque os alunos são obrigados a freqüentarem aulas niveladas pelo entendimento dos piores (alunos), superficiais, monótonas, repetitivas, etc. Aliás, valoriza-se tanto o autoditata torna difícil entender porque não os diplomamos. Passasse as datas das provas, o conteúdo que será cobrado nestas provas e o aprendizado fica por conta do aluno. Quando muito, alguém poderia colocar um roteiro: Como aprender Cálculo I (cronograma das atividades, tempo estimado para cada atividades, listas de exercícios, desafios).
Por que os alunos precisam freqüentar aulas? Eu não sei a resposta disso mas acho que as aulas deveriam ser para a educação o que o XP é para a programação. Aula deveria ser aquele rabisco no quadro totalmente informal que faz todo mundo entender/aprender.
No IME-USP, muitas vezes eu passava o semestre sem frequentar as aulas e na véspera de uma prova eu perguntava para um aluno do doutorado o que era aquela matéria e quais seus conceitos chaves. Sem frescuras, a pessoa me explicava a matéria em poucas horas. E eram horas preciosas… mais eficientes do que qualquer outro método que eu pudesse tentar para compreender a matéria.
Então temos um paradoxo: a aula pode ser o método mais eficiente para o aprendizado e o mais ineficiente. Será que a discussão não deveria ser sobre o método !?
September 14th, 2006 at 9:57 pm
a aula, quer virtual, quer presencial, deve ser um momento de debate… de discussão… compartilhamento de ideias … odeio aulas-palestras regadas a giz e saliva. nao precisamos de resumos orais dos textos de outrem. precisamos da experiencia viva do professor e dos alunos… algo q acrescente… algo q nao podemos encontrar nos livros ou nas pesquisas virtuais… uma aula em mp3 deixa de ser aula e passa a ser fonte de pesquisa. a interação é que é importante. a busca conjunta de respostas, quando possíveis, e, quando não, o consolo de ser compreendido…são essas aulas as impagaveis, as insubstituiveis. nenhuma máquina, nenhum objeto, por mais humanizado, está acima desse encontro.
September 15th, 2006 at 9:51 am
Um tiro no escuro.
Acho que foi uma idéia não muito bem-pensada.
primeiro pq tem que pagar para ouvir o mp3, sendo que você ja paga a mensalidade da escola. Outro fator é que é necessário o download do mp3 (ou stream), e algumas pessoas com conexão discada desistirão.
Na internet pode-se fazer coisas muito mais interativas e gratuitas, como abrir um fórum de discussões, para debater matérias e tirar dúvidas… disponibilizar trabalhos. Agora se quiser também, ele pode gravar as aulas, até em vídeo e disponibilizar na biblioteca…
Ou então fazer como todos os outros. Deixe os slides disponiveis na intranet da faculdade.
Acho que foi um tiro no escuro essa idéia. Dificilmente valerá a pena o esforço.
Valeu
October 9th, 2006 at 6:38 pm
De todas as iniciativas de ensino remoto de que tenho ouvido falar, a minha favorita é o MIT OpenCourseware, através do qual a escola disponibiliza gratuitamente os materiais usados no conjunto das disciplinas lá oferecidas.
http://ocw.mit.edu/index.html
Não se trata de simplesmente colocar vídeos ou áudios de aulas online (concordo com o Meira a respeito da qualidade da maioria das aulas nas universidades… e eu estudo na USP), mas sim de indicar o a programação, fontes bibliográficas, provas etc. usadas nas disciplinas.
Algumas outras escolas já faziam isso, as escolas de administração e de medicina de Harvard, por exemplo, mas tratava-se mais de um esquema de licenciamento de material copyrighted do que uma iniciativa gratuita e voltada ao indivíduo, como o MIT faz.