as viagens, os olhos, o tempo e as palavras

“Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux.” o original, em francês, é atribuído a ninguém menos que marcel proust, aquele da busca pelo tempo perdido. o português correspondente é, mais ou menos… “a viagem das verdadeiras descobertas não é a que busca novas paisagens, mas a que vê com novos olhos”.

todos os dias, queiramos ou não, começamos uma nova viagem. quase nunca ela é uma das “verdadeiras” de proust. dia sim, outro também [raramente escapamos], olhamos a realidade com nossos velhos olhos e seus filtros de caleidoscópicos preconceitos, resultado das experiências -às vezes nem sempre tão boas assim- que acabaram por construir nossa identidade, que [quase sempre] nada mais é do que a capacidade [de cada um] de interpretar o mundo ao redor.

no mais das vezes, nossos filtros de realidade deixam passar apenas os feixes nos quais já queremos acreditar. e ainda inventam as luzes que queremos ver. por isso é tão difícil ver -quanto mais entender- o novo ao nosso redor. o “novo” é quase sempre incrível, no mínimo um sonho inatingível. o grande desafio dos projetos, processos e programas de inovação é que eles “estão” no futuro e, por conseguinte, não fazem parte de um feixe de raios de luz que nos são perceptíveis e inteligíveis como parte do presente.

otto schärmer ensina que o futuro vem do futuro. “pre-sentir“, para ele, é a habilidade de agir, agora, de tal maneira que as ações que realizamos, agora, se originam de um processo de “trazer” o futuro para o presente. difícil de explicar, fácil de entender. imagine-se num processo de mudança, que está reconstruindo as bases de sua organização, reescrevendo seu dna para o futuro [que, aliás, a qualquer momento, já começou {mesmo que em outro(s) lugares}]. se este processo começou a acontecer, é muito fácil “sentir” [olhe o mundo ao seu redor!] que uma parte significativa dele continua no passado. o que não significa que tal “parte” esteja por fora, seja contra ou, de resto, esteja conspirando contra o futuro.

o futuro é construído por partes. segundo gilberto freyre, o futuro nem existir existe… pois o tempo, a qualquer momento, é tríbio: convivemos a todo tempo com pedaços do passado, do presente e do futuro. duvido que haja algum de nós que esteja em um só dos tempos [dos verbos e] do tempo. mas a verdade é que sofremos de falta compreensão para com os que, enquanto estamos num tempo, noutro estão. a pior intolerância é com os que, enquanto estamos no futuro, tentando transformar nossos castelos nas nuvens em sólidas estruturas na terra… estão eles, por necessidade, tomando decisões e agindo, no presente, para pagar nossas contas. o mercado compra no presente. compra passados, presentes e futuros… no presente. e quase sempre paga no futuro, quando paga.

processos de mudança institucional -ou de inovação- deveriam ser percebidos, por todos os que deles participam, num modo freyre-schärmer: é certo que o futuro vem do futuro; mas a qualquer tempo, todos os tempos são presentes. se aceitarmos a inevitabilidade desta interpretação, torna-se fácil entender porque, enquanto as revoluções estão a incendiar o mundo de cada um dos revolucionários, há que haver outros tantos revolucionários que têm que dar conta, na instituição, do presente e do passado… sem os quais não há futuro.

e o resto? são “words, words, words.” palavras, palavras, palavras

One Response to “as viagens, os olhos, o tempo e as palavras”

  1. Joel Says:

    Esses comentários do silvio me fizeram relembrar uma hipótese que me ocorreu quando era bem mais jovem, e da qual já havia me esquecido: um dos grandes problemas do ser humano (são tantos), é o fato de que, dos tres tempos possíveis, apenas sonhamos com o futuro, e não temos consciência real do tempo PRESENTE, já que dependemos de sensações, das respostas de nossos sentidos, e tudo que sentimos JÁ OCORREU, é PASSADO, por nanésimos de nanosegundos talvez, mas sempre passado. Ter consciência do tempo presente me parece totalmente fora das possibilidades do ser humano, a não ser talvez numa epifania, num satori, enfim algo que nos fizesse transcender nossas limitações físicas. E que provavelmente nos deixaria insanos. Viver no passado e sonhar com o futuro, sem nunca conseguir atingir o presente, é a maldição que nos foi legada com o dom da consciência.

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