Archive for July, 2006

dá licença, por favor…

Monday, July 31st, 2006

uma parte considerável do software completamente aberto que circula por aí está garantido pela licença GPL [GNU GENERAL PUBLIC LICENSE, a GPL que nós usamos hoje é a versão 2, de junho de 1991], aquela que dá um caráter viral ao software distribuído sob sua proteção [viral = os derivativos do software também têm que ser distribuídos sob a mesma licença]. uma licença é um texto legal, dinâmico, que tem que mudar à medida em que a sociedade ao seu redor [e suas demandas...] muda. a GPL é administrada pela free software foundation que fala com muita propriedade sobre o sucesso da iniciativa… The success of the GPL is due to its fundamental design principle: the protection of users’ freedom to work individually or together to make software do what they wish...

até aí, tudo bem. o problema começa no parágrafo seguinteTo carry the GPL into the future, we have undertaken to adapt the license to uphold this principle through the opportunities and menaces of today’s technological and legal environment… que anuncia o processo [já em curso há tempos] de adaptar a licença ao mundo atual, incluindo aí o que fazer [se algo tem que ser feito...] com DRM, parte às vezes muito mais presente do que deveria do today’s technological and legal environment.

a GPL não é nenhuma unanimidade mundial mesmo em sua versão atual; quem quer desenvolver e distribuir software livre tem uma miríade de opções para tal usando licenças outras, como as mais de cinqüenta aprovadas por opensource.org. mas GPL é uma licença muito importante e parte essencial, por exemplo, do sucesso de linux, por sua vez parte importante do processo de disseminação da licença; o kernel atual de linux é distribuído sob GPLv2 e, segundo linus torvalds… “The Linux kernel is under the GPL version 2. Not anything else.” por “anything else”, aqui, entenda-se a GPLv3, da qual torvalds já tinha rejeitado o primeiro rascunho e que, segundo ele, no formato atual“The GPLv3 is much inferior. It no longer works in the ‘fairness’ sense. It’s purely a firebrand, and only good for the extremist policies of the FSF…”.

um dos problemas fundamentais é [segundo torvalds] a “guerra religiosa” na qual a FSF está metendo a licença, que não exclui a possibilidade do desenvolvedor inserir controles de direitos digitais em código escrito sob a licença, desde que haja como o usuário jogar o código fora, se quiser. ou seja, é o mesmo que não deixar escrever nada que tenha a ver com DRM em nenhum tipo de coisa que vá ser distribuído sob GPLv3. este é um nobre fim, não há dúvida. a dúvida é se a licença deveria controlar o que pode ou não ser escrito “com” ela, ou se deveria tentar controlar todas as possíveis formas de alguém usá-la de uma maneira não pretendida pelo autor…

eu acho que o propósito de licenças open source é tentar maximizar o grau de liberdade dos usuários. e não estou sozinho em achar que guerras santas contra todos os tipos infratores não são exatamente o que se deveria estar fazendo para disseminar o modelo aberto de desenvolvimento de software. até porque já há filigranas o suficiente para termos mais de 50 tipos diferentes de licenças, o que ajuda a aumentar o caos semântico e, conseqüentemente, legal, em torno do tema.

linus e linux são partes do modelo de software disseminado sob a licença GPL; o fato dele renegar GPLv3 é, de fato, um “fork” no ciclo de vida da licença e ele não pode ser recriminado por rejeitar posições mais radicais da FSF. esta, por sua vez -e por construção, por sinal-, deveria deixar de querer que todo o mundo pense exatamente como ela quer: a liberdade de pensamento é ainda mais importante do que a liberdade de inspecionar, modificar e redistribuir programas de computador… caso stallman & amigos não tenham notado ainda. a menos que tenham reescrito a definição de “free as in freedom”…

laptop de US$100: índia diz não

Friday, July 28th, 2006

o governo da índia, um dos alvos mais caros ao projeto do laptop de US$100, diz não, e ainda acrescenta que… “The case for giving a computer to every single [person] is paedagogically suspect… It may actually be detrimental to the growth of creative and analytical abilities of the child.” já a nigeria, ao mesmo tempo, diz sim, e vai comprar um milhão deles. a olpc precisa de ordens firmes de compra de cinco a dez milhões de equipamentos para botar a máquina em produção, senão ela não fará sentido financeiramente. o futuro da operação, portanto, continua no fio da navalha.

será RUBY a próxima JAVA?

Thursday, July 27th, 2006

bruce tate vai escrever uma série de artigos sobre estratégias para fazer pilotos em RUBY [se você está vindo de java]. o primeiro já gerou uma discussão que vale a pena ler. olhe só o começo… Many developers now know that Ruby on Rails is one of the most important open source projects of our time. The engine behind the growth–intense productivity–is unmatched for frameworks with similar marketshare. While other frameworks boast impressive productivity, no other framework matches the impressive combination of technical innovation and marketshare. The Rails community now contributes an extensive list of plugins (called Gems), books (10 Rails books this year), training, a major conference, and an impressive library of online resources. As Rails makes a splash, even the most conservative companies will begin to consider Ruby.

se você não estiver interessado no texto [ou mesmo na linguagem] vá direto aos comentários. as mesmas promessas de tate [e outros] eram feitas, vinte e mais anos atrás, pelos advogados de programação funcional. produtividade 10 vezes maior, simplesmente porque o código era dez vezes menor. eu estava lá. e era um dos evangelistas de coisas como Miranda. a realidade é, como se sabe, muito mais complexa… e nós só descobrimos muito, mas muito tempo depois…

o [negro?] futuro de youtube

Wednesday, July 26th, 2006

youtube é um sucesso. somente em custos de telecom, gasta mais US$1 milhão por mês, para dar conta do imenso número de downloads. doze milhas por ano. outros custos somam oito milhões de dólares, elevando o custo total da operação a US$20M/ano. o sucesso tem, digamos assim, seu preço. o problema é que não há [e nem parece haver, no horizonte] receita que venha a cobrir a despesa, o que torna as coisas meio críticas por lá. segundo informações de dentro do negócio,… ad revenue goals for July and August are $1 million. In June, the direct sales team brought in $0… zero de vendas em junho para um dos sites de maior sucesso [?] da rede?…

por isso que se diz que o site vai, mais hora menos hora, para os domínios da news corp., de rupert murdoch [sim, ele, o dono de que o site não vai nem ser comprado por ninguém, pois não há compradores disponíveis.

a idéia por trás de youtube, claro, é genial. mas não se constrói um negócio a partir de idéias [e/ou das tecnologias que as suportam], mas sim de clientes, usuários, mercado. a internet 1.0 mostrou isso muito claramente a milhares de investidores e empreendedores. muito do que foi tentado lá é negócio, hoje, depois de ter sido refinado dezenas de vezes, num processo em que boa parte dos primeiros investimentos foi feita [sabidamente ou não] pra educar consumidores, pra mudar pontos de vista, pra “criar” mercado. no negócio de inovação e capital empreendedor, nem sempre quem planta colhe.

o caso de youtube não é único: tem muita gente que [inclusive sem saber] está servindo apenas [o que não é pouco] como parte do processo civilizatório da internet 2.0, a rede de negócios dependentes de padrões abertos e banda larga que começa a ser construída, muito irregularmente, em todo mundo. os empreendedores aprenderão e seus investidores também, o que os tornará mais aptos a ganhar muito dinheiro quando a coisa realmente sedimentar, como já aconteceu antes, em outras [r]evoluções.

de longe, aqui, há pouco mais a fazer do que lamentar que o capitalismo de risco brasileiro só entrará em campo no fim do segundo tempo da decisão do campeonato, sem a experiência e o conseqüente aprendizado de ter jogado uma temporada inteira na divisão de acesso.

enquanto isso, na sala de justiça

a vivo é a primeira…

Tuesday, July 25th, 2006

…sim, a vivo é a primeira operadora brasileira de telefonia móvel a falar [parte de?] sua verdade sobre o número de celulares realmente ativos. no fim do segundo trimestre do ano, a operadora fez uma primeira “limpeza” em sua base e descartou um milhão e oitocentos mil celulares. a maioria corresponde a números que não estão sendo mais usados ou estão “cortados” pela operadora, por falta de pagamento ou descumprimento de regras contratuais.

em nota anterior, [a china móvel e os celulares-fantasma], o fenômeno de inflação de celulares [no brasil] foi discutido neste blog… concluindo que deve haver muito menos celulares por aqui do que o número “oficial” da anatel. especialistas estão ajustando, hoje, o número de celulares reais no brasil pra faixa dos 50 milhões, 80% dos quais pré-pagos, o que deixa o mercado brasileiro muito menor do que muitos queriam, e a inclusão digital, via telemóvel, muito pior do que o desejado.

tá na hora das outras operadores terem a coragem da vivo e anunciar suas bases reais de assinantes, item essencial até para o país tratar de políticas e estratégias para a área. e pros acionistas decidirem o que “suas” empresas estão fazendo… com seu rico dinheirinho…

o fim das lombadas eletrônicas

Monday, July 24th, 2006

sim e não. não porque elas vão continuar lá. sim porque nós não vamos mais ser pegos pela indústria de multas que assola o país. como? simples: veja aqui. a tecnologia? “vidro eletrônico“, que fica transparente quando submetido a tensão elétrica e opaco quando desligado. o que está mostrado no vídeo parece muito preliminar. para funcionar mesmo, teria que estar ligado a um GPS e um sistema de controle, capaz de “desligar” a placa quando um multador automático fosse detectado e ligá-lo logo depois, para o benefício dos guardinhas. software trivial. e ilegal, também. mas que vai aparecer em muito, muito breve…

uma chance [a mais] pra amazônia

Monday, July 24th, 2006

[nada a ver com TICs, mas...] esta ótima notícia está no guardian de hoje:

Leading European supermarkets, food manufacturers and fast-food chains, including McDonald’s, are expected to pledge today not to use soya illegally grown in the Amazon region in response to evidence that large areas of virgin forest are being felled for the crop.

In a victory for consumer power, the companies say they will not deal with the four trading giants who dominate production in Brazil unless they can show they are not sourcing soya from areas being farmed illegally. The traders met in Sao Paolo last week and are expected to sign up to a moratorium on using soya grown in the Amazon.

face à patente incapacidade dos nossos governos e suas agências de controlar qualquer coisa, de verbas pra ambulâncias até [a venda de] sentenças judiciais, passando por máfias [eleitas pelo povo, quase sempre], não deixa de ser uma ótima notícia que gente de fora tente, de lá, controlar a destruição da amazônia. de nada adianta tentar salvar algo pra que se tem um mercado gigantesco; atacar a demanda é essencial pra ter algum efeito na oferta [como mostra o caso das drogas]. neste caso, só falta a europa combinar com a china… que além de destruir seu próprio ambiente, não parece ter qualquer preocupação com o dos outros.

só lendo pra crer

Sunday, July 23rd, 2006

o afamado skunk works da lockheed martin, construtores do lendário SR71 blackbird, apresentaram ao público de farnborough um protótipo de avião ["polecat"] não tripulado de 28 metros de envergadura que foi… impresso [ao invés de construído com partes e peças usinadas em processos mecânicos "normais"]. o processo é “simples” [e tá na nova newscientist]: …a three-dimensional design for a part – a wing strut, say – is fed from a computer-aided design (CAD) system to a microwave-oven-sized chamber dubbed a 3D printer. Inside the chamber, a computer steers two finely focussed, powerful laser beams at a polymer or metal powder, sintering it and fusing it layer by layer to form complex, solid 3D shapes. imagine, daqui a alguns anos, o que vão estar imprimindo numa impressora qualquer, perto de você…

te cuida, ipod… aí vem zune.

Sunday, July 23rd, 2006

tocador de mp3 há. milhares. nenhum, até agora, que tenha vindo ao mundo pra competir diretamente com o ipod, sucesso-quase-mania da apple. por várias razões, o competidor tinha que ser da microsoft [imagine o inferno que seria sua vida se você tivesse que combater em tantas frentes como redmond]. a coisa se chama [hoje] ZUNE, vai ter drive e wi-fi e parece que o jogo vai ser pesado [clique aí... Microsoft will buy your way out of iTunes in order to convert you to a Zune user]. quer ver o viral marketing [não achei estas coisas todas]? o review tá no engadget, junto com notícias de tudo o quanto é brebote eletrônico e informático do mundo…

orkut? 0.3%. myspace? 76%!…

Saturday, July 22nd, 2006

rupert murdoch pagou quinhentos e oitenta milhões de dólares por www.myspace.com e, mais uma vez, o dono de sky e directv não estava errado. atrás de propriedades “de mídia” na internet para casar com seu império mundial de mídia clássica, murdoch apostou em myspace e manteve, após a compra, seus fundadores [Tom Anderson and Chris DeWolfe] como executivos da operação, a peso de ouro. sábia decisão.

o resultado tá na manchete. coisas que parecem sucessos fenomenais, vistos aqui de pindorama, como o orkut [uma propriedade de google] têm 250 vezes menos audiência, no mercado de redes sociais, do que myspace. dados de hitwise mostram que o site já é a maior audiência da internet, passando yahoo mail na semana de 8 de julho. a soma dos yahoos ainda bate myspace, que também aparece na quinta posição com seu mail. mas parece coisa de meses… em dois anos, a audiência do site cresceu 4300% e a busca por nomes relacionados a myspace é, hoje, responsável por quase 2% de todas as buscas na web.

1

MySpace www.myspace.com

4.46%

2

Yahoo! Mail mail.yahoo.com

4.42%

3

Yahoo! www.yahoo.com

4.25%

4

Google www.google.com

3.89%

5

MySpace – Mail mail.myspace.com

2.85%

pra quem quiser comparar com google, o gráfico abaixo mostra a audiência percentual dos dois, na rede, desde março. coisa de louco. será que murdoch descobriu uma pedra de toque na rede, na forma de um veículo de expressão dos desejos, sentimentos e idéias [e o que mais? notícias?...] das comunidades? se sim, pode ser o começo da escapada da news corp., sua mega empresa de mídia, pra rede e pro futuro dos negócios de informação.

pra entender pra onde murdoch pode estar indo [até porque ele domina os céus da tv via satélite no brasil, também] vale a pena ler uma longa reportagem da wired sobre ele e “seu” espaço. lá, o homem que apostou 14 vezes o preço de seu apartamento em nova iorque no negócio de myspace revela que… “God knows what we’re going to do with MySpace… We’re just discovering what this thing can do… You want to learn from MySpace,… Can you democratize newspapers, for instance? What does it mean for how we do sports or politics? I don’t know – no one does. I just know we’ll figure it out.”

é, ele pagou mais de meio bilhão de dólares por uma coisa que ainda vai descobrir pra que serve…

google: free cash flow 2006 = US$2B. ruim?

Friday, July 21st, 2006

GOOG, MSFT e NASDAQ, 5 diasse eu e o leitor tivéssemos uma companhia capaz de gerar um fluxo de caixa livre de dois bilhões de dólares por ano… acho que nós não íamos achar ruim não. mas e se o mercado, detentor de 70% das ações de nossa empresa, tivesse feito a previsão [baseada em comportamento histórico...] de que tal fluxo, este ano, iria ser de três bilhões, 50% a mais do que o ano passado? aí é onde os problemas de google começam, com um número importante, este ano, igual ao do ano passado. coisa pra sair vendendo todas as ações de google agora? certamente que não, a companhia pode surpreender muito, ainda. mas, hoje, está tendo que gastar uma quantidade muito grande de seu caixa na aquisição e construção de infra-estrutura essencial para suas operações. há quem diga que a maior parte destes gastos vai ocorrer uma só vez [ou então muito de vez em quando].

mas há quem ache que é bom dar adeus a crescimento, muito acima do mercado, das margens operacionais e que a conseqüência óbvia será a compressão das razões [como preço sobre receitas, hoje em astronômicos 32, para 2007!]… levando a novas avaliações da companhia [que vale o dobro da time-warner... sendo que a última tem quase quatro vezes fluxo de caixa livre!] e a uma nova e mais estável realidade no negócio.

resultado na ponta da linha? as ações vão cair. quanto? o gráfico desta nota é dinâmico, feito por yahoo finance, e compara GOOG [em azul] a MSFT [em vermelho] e ao índice NASDAQ [em verde], em porcentagem, nos últimos cinco dias. hoje, na hora que esta nota foi publicada, GOOG caiu 1.5%. confira você mesmo e/ou clique no link da figura pra mudar as comparações e visões. e venda algumas ações… pra comprar outras da microsoft, que tá parecendo cada vez melhor [como investimento].

inovação colaborativa, engenharia e brasil

Wednesday, July 19th, 2006

uns meses atrás escrevi, para a cni, um texto de suporte a um trabalho da confederação sobre engenharia no brasil e a necessidade de [nas universidades e centros de pesquisa] tratarmos os problemas de pesquisa, desenvolvimento e inovação dentro de uma agenda e escopos coordenados e de maneira colaborativa [entre nós e com a indústria], como uma das únicas chances de darmos alguns dos saltos de que precisamos para competir internacionalmente com algo mais do que grãos e carne. o texto começa assim…

As mudanças na economia mundial, com aberturas em vários níveis criando novas oportunidades de redesenho das cadeias de valor das indústrias e dos serviços, vem exercendo uma pressão cada vez mais intensa nos sistemas nacionais [e locais] de inovação, de mais de uma forma instados a exercer um papel mais próximo do mercado e em tempos cada vez mais estritos. Ao mesmo tempo, quando o papel das organizações de negócio passa a ser o de “resolver” o problema de seus clientes e usuários, e não o de oferecer uma “solução” específica para alguma parte de suas preocupações, cresce a importância das combinações multi-disciplinares e paradigmáticas para servir como base para o processo de inovação. É neste contexto que se situa, hoje, a relação entre a pesquisa colaborativa [nas instituições de ensino e pesquisa] e o mundo real dos negócios [e sua permanente demanda por inovação].

a íntegra da [minha] contribuição pode ser lida aqui… e o documento integral da cni está aqui. boa leitura…