numa terça-feira, 7/3/2006, este blog vazou para o país a notícia de que o padrão japonês [ISDB] seria escolhido para o sistema brasileiro de tv digital, alterado de várias formas, incluindo a troca da tecnologia de compressão de áudio e vídeo [MPEG-2] por MPEG-4. não era informação privilegiada, somente uma nota sobre as conversas de corredor na telexpo, em são paulo. no dia seguinte, a folha de são paulo deu a notícia em primeira página, com outras mais no carderno de economia, o que levou o governo a negar que a decisão tivesse sido tomada, quando todos os atores “por dentro” do processo sabiam que sim, a decisão estava tomada e não havia caminho de volta.
ainda assim, as forças por trás dos padrões americano [ATSC] e europeu [DVB] voltaram à carga, principalmente os europeus, representados por muitas indústrias de grande porte que têm fabricação de televisores, equipamentos e terminais de telecomunicação no brasil e, obviamente, um interesse legítimo em que o padrão nacional fosse o europeu. o esforço do “grupo dvb”, que continuou sendo ouvido pelo governo brasileiro mesmo depois da decisão interna de março, deve ter aumentado significativamente o poder de barganha do país, que vai ser o segundo no planeta a tentar usar o padrão japonês para tv digital.

o japão tem uns 10 milhões de receptores de tv digital, 671 mil dos quais vendidos em março [data do último relatório disponível on-line], de acordo com o site do grupo que promove o padrão ISDB [aliás, o site de DVB dá de 100 a 0 no de ISDB… tomara que o padrão seja melhor do que o site]. a escolha, pura e simples, do padrão de modulação de sinal [a forma como os sinais de tv são codificados e transmitidos] do ISDB e a decisão de usar MPEG-4 como padrão para comprimir áudio e vídeo deixarão ainda muito a discutir, escolher e implantar.
o que é quase certo é que, aparentemente, as atuais estações de tv vão conseguir o que queriam: a) manter seus atuais lotes de espectro, evitando a entrada de mais estações no ar, o que fragmentaria [ainda mais] o mercado e, b) transmitir TV diretamente para os celulares, sem passar pelas operadoras. este último ponto, aliás, era uma espécie de pedra de toque do processo de escolha, pois as tvs fincaram o pé no princípio de tv aberta e grátis para todos, em todos os tipos de dispositivo. isso faz sentido? pode fazer, ainda mais em economias como a nossa: a italiana TRE, primeira a transmitir DVB-H na europa, cobra 29 euros por mês pelo pacote básico de seis canais no celular…
mas não era a cobrança pelo serviço que apavorava as tvs brasileiras [se o modelo, aqui, fosse tvd “por dentro” das teles]. na TRE o nome do sistema é La3 TV e, no rodapé da página, a TRE avisa… I pacchetti di canali, la programmazione e/o i servizi dell’offerta tv saranno soggetti a periodico aggiornamento e potranno essere sostituiti, modificati e/o cancellati… que pode substituir, cancelar ou modificar canais sempre que der na telha. dela, claro, assim como faz o agora monopólio da tv [digital] via satélite no brasil, a sky/directv. que, por sinal, usa o padrão DVB-S para chegar na casa de quem tem, assim como a turma do cabo usa o DVB-C. o rolo todo da escolha do padrão é sobre tv digital em broadcast, aberta, que está em mais de 90% dos lares brasileiros. o resto, de uma certa forma, parece que não importa…
a austrália começou seu processo de introdução de DVB há cinco anos e tem tv digital em 20% das casas; a maioria das estações transmite em triple cast: tv de alta definição [cujo set top box é caro…], de definição padrão [de set top box barato e que pode usar as tvs atuais como saída] e tv analógica [que já temos hoje]. aqui, o governo parece querer que as estações tenham um plano para tvd em 6 meses e comecem a operar em até 18 meses, e não vai dizer como elas vão transmitir, a escolha será de cada empresa. o “operador do sistema”, uma entidadade semelhante à ONS [que planeja, programa e transmite a eletricidade gerada pelas usinas de força, pelo país afora, para todo o país] que parecia não ser desejo de ninguém entre as tvs comerciais, vai existir e irá operar mais quatro canais públicos [que vão ocupar o que seria o espaço de um canal analógico atual].
quase tudo, no entanto, está para ser definido. qual será o software da tvd brasileira? tv digital pode ser só de alta definição, o que importa, mas não tanto, e pode ser também interativa, o que importa muito. porque inclui o canal de retorno no cenário e traz, para dentro do problema, as operadoras de telecom, por onde passam os comandos do usuário [e não mais espectador] para interagir com o sistema. começar sem uma previsão de formas e meios de interação pode significar, daqui a alguns anos, um legado gigantesco de set top boxes que terão que ser trocados por uma população que não tem tanto dinheiro disponível assim, como de resto o governo e as empresas sabem.
mas há muita gente que entende tvd como tv digital de alta definição, e só; e acha que o cidadão da poltrona não está interessado em interagir com nada, está mais é descansando seus neurônios na sala… pode ser, mas pode não ser. tv digital bem que poderia ser um dos mais importantes mecanismos de inclusão digital em países como o brasil, mas parece que isso, até agora, não faz parte do cenário. tomara que, alguma hora, venha a fazer…
ah, sim: tomara que o padrão “nipo-brasileiro” que parece que vai começar a ser construído, de fato e de direito, amanhã, não venha a ser outro pal-m. ou o betamax da tv digital mundial, melhor que todos mas usado por ninguém. quem quiser aprender sobre isso, é bom entender a experiência inicial da austrália e da inglaterra…