Archive for May, 2006

msft: vale a pena comprar a time-warner?

Friday, May 12th, 2006

a business week acha que pode ser uma boa comprar um gigante deste porte, inteiro, talvez antes de google ter a mesma idéia. o engenho de busca tem um pedacinho da aol, por sua vez um pedaço da t-w. o nome da disputa é conteúdo, coisa que nem a msft nem google têm, e muito menos jeito pra ter, no curto prazo. nisso, outras companhias como aol e yahoo dão de muito. mas, por outro lado, talvez seja uma melhor ainda comprar algo bem pequeno como veoh, um start-up de internet tv.

vai haver algum tipo de consolidação de grande porte, e em breve, na rede. os gigantes têm as carteiras abarrotadas de dinheiro vivo e não podem esperar o tempo que levaria para desenvolver suas próprias operações de conteúdo, por exemplo. de resto, innovation happens elsewhere. enquanto você está cuidando do seu negócio, tem muita gente que está criando outros, que eventualmente podem destruir o seu… se você não for esperto o suficiente para usar suas [gigantescas] margens atuais para comprar quem poderia ser uma ameaça no futuro próximo.

ainda mais, nao fazendo nada, agora, não adianta se arrepender, como nesta história aqui, onde terry semel, ceo de yahoo, conta como NÃO comprou google…

peer to patent: comunidades constroem conhecimento

Tuesday, May 9th, 2006

entre 1963 e 2004, o USPTO, departamento de patentes e marcas dos estados unidos, concedeu 3.748.103 patentes, das quais 1.531.303 a empresas, cientistas, inventores e malucos de outros países [que não os eua; o brasil tem 1.705, menos da metade da áfrica do sul…]. em 2004, foram 164.293, quase que igualmente dividido entre home e foreign, um empate que está se tornando cada vez mais uma vantagem para o resto do mundo.

qual o problema desta enxurrada? são coisas como 1-click-shopping, uma patente completamente sem noção que torna privilégio da amazon.com a tecnologia trivial e usada na internet ao tempo em que a patente foi pedida pela empresa. a seu favor, jeff bezos dizia quewhat makes this patent viable has nothing to do with its implementation, but with its reframing of the purchasing problem… [e que] the significance of an invention isn’t how hard it is to copy, but how it reframes the problem in a new way.

este debate estava quente em 1997-2000, quando a amazon processou a barnes & noble e muita gente creditava à “incompetência” do USPTO este tipo de concessão, digamos, banal… [Bezos: …it’s unfair to criticize the Patent Office given the current state of the law and the resources they operate with. One can’t simply attribute this patent, as many do, to their incompetence…]. de lá pra cá, o caos só aumentou, como mostra um processo recente da netflix contra a blockbuster, onde está em causa “o modelo de negócios na internet” da primeira, supostamente violado pela segunda…

nos negócios de propriedade intelectual de produtos e processos, ao contrário de conteúdo cultural, muita coisa aconteceu no mundo real, mas pouco do sistema legal mudou; recentemente, se tornou clara a necessidade de se reformar, em escala, o sistema de patentes dos eua, o mais importante do planeta, e uma das iniciativas mais relevantes, neste cenário, é o PEER to PATENT PROJECT, um mecanismo de participação ativa da comunidade no processo de revisão de pedidos de patente, de forma a auxiliar e facilitar o processo de tomada de decisão do uspto. simples e, ao mesmo tempo, genial [e não patenteado!]. trata-se de um processo de aprendizado e construção comunitária de conhecimento, como os processos de desenvolvimento [distribuído, em rede] de software [livre]. o lançamento é nesta sexta, 12, no uspto, e a IBM, detentora do maior número de patentes do mundo [42.590, 25 vezes mais do que nosotros…] apóia o esforço. na [aparente] impossibilidade de eliminar patentes, o objetivo de todos no projeto parece ser algo como “fewer, better patents“.

coincidentemente, a computerworld brasileira acaba de publicar uma reportagem especial sobre software e patentes no país, onde se diz que o inpi, nosso pto, vai contratar mais 480 examinadores de patentes, um aumento de 70% do quadro atual. muito bom, porque a história recente do órgão não é das melhores; mas bem que nós poderíamos dar muitos passos a mais e botar o sistema de patentes de cabeça pra baixo, ao estilo do peer to patent, antes que os novos examinadores comecem a conceder patentes a todo tipo de idéia besta que aparecer nos arquivos da instituição. pois o que vale não é uma patente, mas uma patente que tem novidade e utilidade, que não é senso comum, que faz sentido no mercado, pela qual alguém quer pagar alguma coisa. e, nesta categoria, há muito poucas idéias que realmente merecem atenção… e, no caso de software, conceder patentes pode não ser uma boa idéia de jeito nenhum.

c.e.s.a.r, inovação, educação, Brasil, capital de risco…

Monday, May 8th, 2006

Patrícia Mariuzzo, da Revista Inovação UNIEMP, me submeteu recentemente a uma inteligente sabatina sobre c.e.s.a.r, inovação, educação, Brasil, capital de risco e outras coisas mais. Foi uma excelente ocasião para refletir sobre um número importante de temas, e agradeço imensamente à Revista pela oportunidade. A entrevista, cuja primeira pergunta está abaixo, acaba de ser publicada, na íntegra, em meira.com

Você chama o Cesar de “empresa intermediária”,”fábrica de empreendimentos” que não tem vínculo institucional com a universidade, mas que também não é uma empresa que opera para gerar lucro. Como vocês chegaram a este modelo que se caracteriza por uma estrutura de governança autônoma? Como é hoje sua relação com a universidade? Que tipo de oposição o senhor enfrenta dentro do modelo adotado pelo Cesar?

Na discussão que originou o processo de criação do c.e.s.a.r, nós entendemos que uma instituição que pretendia romper com o status quo, criando no Brasil, para conhecimento, um modelo de negócios onde as perguntas do mercado [que têm que ser entendidas por vendedores…] são mais importantes do que as respostas da academia e onde há de haver capacidade de entrega de soluções efetivas [e não de protótipos de laboratório], para o que tem que ter processos, gestão e, principalmente, trabalhar com noções muito bem entendidas de especificação, tempos e custos, teria muitas dificuldades de operar dentro do contexto da universidade, cujo papel fundamental ainda é a formação de capital humano, eventualmente subsidiado por atividades de pesquisa… e cujos processos têm que, necessariamente, se orientar para tal.

De mais de uma forma, o c.e.s.a.r desenha soluções [e às vezes, negócios] e tem que se redesenhar, permanentemente, para atendê-los. As universidades têm uma dificuldade muito grande de se redesenhar com freqüência. [continua... para ler na íntegra, clique aqui…]

em 5 anos, 50%

Sunday, May 7th, 2006

ron bloom, fundador de podshow, aposta que em cinco anos 50% do conteúdo será gerado pelo público e não pelas produtoras e artistas “clássicos”. pode até ser que sites como overmundo, “coletivos virtuaiscapazes de manter viva uma discussão sobre rock na amazônia por 45 dias, sejam arautos de novos modelos de criação e propagação de conteúdo cultural.

e o fato indiscutível é que estamos num hiato entre o velho modelo de negócios de conteúdo [artistico, também], baseado na compra e venda de suporte físico… e um novo modelo, que ninguém sabe exatamente qual é, e que pode também ser uma volta a um ainda mais antigo sistema de suporte à arte, o de remuneração por performance. dança, muito provavelmente, tem uma renda muito baixa de dvds e coisas do tipo: companhias de dança têm, de fato, que dançar para ter remuneração. muito vez por outra um bailarino “estoura” no cinema, mas são tão poucos que a gente consegue nomear todos.

nesta fase de transição, coisas esquisitas acontecem: gente como a riaa, ao invés de dar nem que seja um mínimo de atenção ao futuro e as formas de vida digital que, sem nenhuma dúvida, irão acontecer por lá, anda numa fúria fiscalizatória que pode levá-los a tentar proibir que os passageiros também escutem o que está tocando no rádio do carro, pois talvez isto fosse compartilhamento ilegal de ondas sonoras. ainda não é verdade mas, em se tratando da riaa, pode ser só uma questão de tempo…

celular vira… cartão de crédito

Thursday, May 4th, 2006

se você tem pelo menos 12 anos e um celular i-mode da docomo, a maior operadora móvel do japão, parte do conglomerado ntt, o [antigo?] monopólio estatal de comunicações do sol nascente, seu keitai pode virar dinheiro móvel em alguns poucos toques. é só preencher um formulário [no celular mesmo] e DCMX, o mais novo serviço disponível por lá, crédito, está em suas mãos. no DCMX mini, uma linha mensal de US$84, pagável na sua próxima conta, pode ser usada [sem contato do celular com dispositivos de leitura, pois a coisa funciona por proximidade] em 25 mil lojas, que serão 100 mil no fim do ano e 150 mil daqui a um ano. o mercado japonês de pequenos pagamentos [abaixo de R$50] vale mais de um trilhão de reais por ano e é atrás desta clientela, que compra jornais, refrigerantes, sanduíches, tickets de transporte… que a docomo está. mas o DCMX vai servir também como cartão de crédito propriamente dito na sua versão mais sofisticada.

o desafio da docomo, segundo ela própria, é ganhar 10 milhões de usuários para osaifu-keitai [ou carteira móvel] em três anos, que era exatamente o número de clientes planejados para o i-mode no lançamento [em 1999] do que veio a ser o maior ambiente de internet móvel do mundo. por que a docomo, um dos maiores sucessos empresariais de telecom de todos os tempos, abre seu leque para fazer serviços financeiros?

primeiro, porque está melhor posicionada do que ninguém. tem os clientes, os clientes têm endereços e contas, ela já conhece seus perfis de uso e pagamento. os celulares dos clientes falam com os servidores da docomo, onde está a aplicação de carteira eletrônica e… a certeira deles vai ser preenchida com cédulas virtuais da própria docomo, que tem sua própria carteira cheinha e está investindo bem mais de um bilhão de dólares no projeto.

segundo [e talvez mais importante para os acionistas] porque a queda das margens de lucro de operações de comunicação, seja de voz, dados ou mídia, começa a refletir a commodity que tais serviços, na verdade, sempre foram. os lucros da docomo caíram 18% em 2005 [para “apenas” US$5.3B] e a companhia aponta para outra redução, de mais 20%, em 2006. depois de perder muito dinheiro tentando entrar em mercados que não entendiam, na europa e na américa, os líderes mundiais de internet móvel voltam a se concentrar em seu riquíssimo quintal e apostar em serviços de valor agregado sobre a plataforma de comunicação do presente e do futuro, IP. sobre ele, seja fixo, móvel, voz, dados, aplicações,… dinheiro, a docomo quer estar lá.

US$100 laptop: brasil fora?

Wednesday, May 3rd, 2006

segundo a newsletter ti&governo, o coordenador do núcleo de assuntos estratégicos (nae) da presidência da república, luiz gushiken, descartou, durante apresentação recente no conselho nacional de ciência e tecnologia (cct), investimentos federais em informática na educação através da solução proposta pela fundação olpc, criada por nicholas negroponte para promover o laptop de cem dólares. considerando que estamos no brasil, não chega a ser uma notícia; negroponte esteve no país, falou com muita gente do governo central, disseram-lhe que sim, o brasil estava no projeto… ao ponto da olpc ter posto o brasil no mapa dos países onde vai rolar o laptop, que só pode ser comprado [até agora] por governos. até ainda agora, ainda estávamos lá. mas, bem… aqui, afinal, é o brasil.

segundo o estudo do nae, o governo federal deve investir em laboratórios de informática clássicos, e torná-los parte da vida de todos os estudantes de ensino médio do país, pelo menos, projeto para o qual aparentemente existem recursos da ordem de R$100 milhões este ano… e que poderia começar a andar ainda neste semestre. quem viver verá. isso porque a discussão sobre universalização de acesso à computação e internet está por aí, mais morta do que viva, há quase uma década, sem que se faça nada realmente do tamanho do brasil. a menos, claro, do recolhimento de 1% de todas as contas de telefonia para o fundo de universalização dos serviços de telecomunicações (fust, desde agosto de 2000), cujo eventual uso mais parece ser uma daquelas lendas e mitos que assolam o imaginário nacional, como a mula-sem-cabeça, a mãe-d’água e o saci-pererê.

com todo o respeito que se deve ter por brasileiros, dedicados, responsáveis e comprometidos que passam boa parte de suas vidas a tentar fazer o governo federal se mover de um ponto A para outro, B, não muito distante do primeiro, falar de R$100 milhões de investimento em universalização de acesso à internet quando o fust tem, em depósito, alguma coisa em torno de cinco bilhões de reais… parece brincadeira. por outro lado, é revelador que, face à nossa sabida perda de competitividade digital e de rede [veja o post e-readiness: brasil melhora a nota e… vai para trás!] não tenhamos tido energia, até agora, no governo federal, para transformar os bilhões de reais do fust em ações para aumento do grau de informaticidade brasil afora, principalmente nas partes mais isoladas e necessitadas do país. no próximo e-readiness ranking a gente vai ver o resultado…

enquanto, isso, no mundo do laptop de cem dólares, o trabalho continua.

e-readiness: brasil melhora a nota e… vai para trás!

Tuesday, May 2nd, 2006

andando pra trás e meio assustado, como caranguejo nos mangues do capibaribe, aqui em recife, quando a molecada atola os pés na lama atrás do almoço, o brasil melhorou sua nota no e-readiness ranking do economist intelligente unit, que mede a competitividade digital de 68 países. saimos de 5.07 ano passado para 5.29 este ano, mas caímos de novo: saímos do 38o. para o 41o. lugar, depois de termos vindo de um nada honroso 35o. em 2004, e agora estamos onde a jamaica estava em 2005. haja reggae!

há conclusões? talvez. primeiro, estamos avançando muito, mas muito devagar. aí quem vem mais rápido vai passando; é o programa “rubinho” de tudo digital, começando por inclusão digital, que está às favas há anos, até banda larga, que não é, ao contrário do resto do mundo, uma preocupação nacional. desde que os órgãos de arrecadação de impostos estejam conectados, parece que prefeitos, governadores e presidentes não estão nem aí. há exceções, eu sei, mas só pra justificar a regra. segundo, quem estiver pensando em digital businesses, por aqui, nesta marcha, é melhor repensar: se a coisa continuar do jeito que tá pintando, em breve, a três posições de queda por ano, chegaremos no sri lanka, que tá la no 59o. lugar, mesmo depois do tsunami que arrasou sua economia.

chile, no 31o. e a áfrica do sul, no 35o. dão de muito no brasil: um dia destes, em uma reunião de governo, uma de minhas propostas era de que o brasil deveria fazer um plano pra chegar no nível da áfrica do sul. parece que eles estão melhores do que a gente em educação e outras coisas, como iniciar um negócio: aqui, leva-se em média 152 dias pra abrir uma empresa. lá, só 38. na dinamarca, que lidera o ranking, seis dias. ah… bom: por que será que a dinamarca lidera o ranking e… por que nós precisamos de cinco meses para começar um negócio aqui?…

jkg: 1908-2006

Monday, May 1st, 2006

john kenneth galbraith, pensador, economista e um dos mais importantes intelectuais do mundo, faleceu aos 97 anos de idade. figura de proa na interpretação da realidade mundial [e não da realidade econômica mundial, ou do mundo através da economia], galbraith esteve na [ou contra a] política americana desde a década de 40 [em 46, já havia recebido a Presidential Medal of Freedom, de Truman] e será lembrado, por muito tempo, pelas suas posições democratas e liberais.

jkg considerava um crime moral a distância cada vez maior entre ricos e pobres e sempre defendeu que, se o governo faz mal as coisas grandes, também é um desastre nas pequenas [sua célebre frase sobre o assunto é… You will find that the State is the kind of organization which, though it does big things badly, does small things badly, too.]

escritor e frasista excepcional, fez centenas de comentários que vão ficar na história. um, em particular, sobre o poder nos estados unidos, se aplica ipsis verbis à atual situação do brasil: “In the United States, though power corrupts, the expectation of power paralyzes.” em seu livro de 1967, the new industrial state, sobre a tomada do poder pelas corporações, jkg anteviu coisas que confirmou em uma micro-entrevista ao observer, ano passado, “…Our military operations, including notably Iraq, are under corporate direction through Rumsfeld and a compliant military staff. In the absence of corporate initiative and power we would not be in Iraq. And, a more poignant matter, we would not have George Bush.”

segundo galbraith, no mesmo texto de quase 40 anos, quem controla informação detém poder [o que elimina competição perfeita, através de marketing, por exemplo…]. pode até ser que a internet esteja reduzindo este controle, ao criar incontáveis espaços de expressão pessoal e comunitária que questionam o poder de governos e corporações de formas e em intensidades nunca dantes vistas na face da terra. o espírito do mestre certamente estará sorrindo em agradecimento…