sun: servidores -> hora de cpu…

a sun acaba de ligar e anunciar as regras de uso, como negócio, dos primeiros cinco mil computadores da sun grid, anunciada pelo capo jonathan schwartz em pessoa como o primeiro supercomputador sob demanda do planeta. a empresa de java, cuja performance causa dúvida sobre sua sobrevivência independente [seria comprada por google, por exemplo?], vai tentar de outro jeito, fazendo valer seu motto de longa data the network is the computer

esta história, no entanto, é muito velha; antigamente, quando os computadores eram tão caros que poucas empresas tinham um, quase todos levavam [manualmente] seus dados para os birôs de serviço onde eram processados e cobrados por… hora de cpu. a internet, como conector de tudo, e em banda larga, não só facilitou este processo mas pode acabar levando muitas empresas a desistirem de seus data centers em prol de uma solução que certamente vai se provar muito mais econômica e confiável. se o “grid” da sun é uma delas, o tempo vai dizer. custa só um dólar por hora de cpu… mas será que este é o modelo de cobrança [e de resultados] que vai pegar?…

muitos anos atrás, em 1998, pra ser exato, escrevi um artigo na coluna sociedade da informação da agência estado sobre mainframes e como eles nunca iriam embora; na verdade viraram grid, um monte de placas padrão empilhadas em uma arquitetura redundante… meu artigo falava, lá no fim, que não se deveria cobrar computadores, para corporações, por hora de cpu, e sim por tempo de transação…

A volta dos que não foram [publicado em 1998 em www.agestado.com.br]

O interessante das previsões é que qualquer um pode fazer e, se der certo, dizer que fez; deu errado, faz de conta que não é com ele e… faz novas previsões. Ainda assim, há previsões garantidas, como estimar o número de pessoas usando a Internet no ano A, qualquer: no máximo, será a população da Terra. Acreditando nos Arquivos X, deve-se acrescer os extra-terrestres residentes e transeuntes, ainda não descorporificados pelos Homens de Preto. Hoje, o limite é uns seis bilhões, por aí.


Certas horas tem que se levar na zona porque as previsões são tantas e tão díspares que não é possível usá-las para exercícios de planejamento. E previsão deveria servir para isso, para tentar saber que negócio montar, e como, para que público que quer pagar quanto, e onde, por ele. Independentemente do número de pessoas na rede, seria possível prever a porcentagem de internautas dispostos a fazer transações -comprar, usar o banco, declarar e pagar impostos- na rede?

Meu chute é pelo menos a metade da rede. A IDC Research (www.idcresearch.com) acha que, já em 2001, serão 39% dos navegadores. Então minha adivinhação está boa. Que transações este povo todo vai fazer? Alugar games, que serão transferidos para o micro ou jogados diretamente no browser, é uma. Fazer compras no supermercado, é certeza, além da clássica compra de livros e música, às quais será acrescido vídeo, em tempo real, ameaçando as locadoras normais. Fazer todas as transações bancárias on-line vai ser padrão em muito breve, num caixa eletrônico ou direto na rede.

Se vamos fazer tudo isso on-line, quem vai processar os dados, como se dizia antigamente? Os mainframes, ou computadores de grande porte, como havia nos centros de processamento de dados e birôs de serviço. Pois é: os mainframes, dados como extintos, nunca deixaram de ser o hardware que sustenta os maiores, mais complexos e mais demandados sistemas de informação do mundo. Agora, renovados e na Internet, têm que segurar a onda de serviços onde, ao invés dos antigos operadores e analistas de produção, estamos nós, usuários reais, apertando os botões. Com eles volta, com mais de mil, o birô de serviço, que também nunca deixou de existir.

Imagine seu banco e os clientes como você, só pra gente fazer umas contas. Vou assumir que o banco, além de grande, só funciona na Internet e tem um milhão de clientes. Alguns dos bancos reais, se já não têm, estão perto de ter um milhão de clientes na rede. Se cada um, em média, fizer três transações por dia no horário do expediente, serão 3 milhões de transações em seis horas; 500 mil por hora ou quase 10 mil por minuto. A cada minuto, dez mil transações começam. E têm que terminar.

Uma destas transações pode ser o saldo, outra o extrato dos últimos três meses, mais uma seria pagar a conta da luz. Coisas simples para nós aqui fora, mas que lá dentro, nos bancos de dados e canais de comunicação, podem representar entre dezenas e milhares de transações internas: lá no hardware, em conjunto, algo entre dezenas de milhares e muitas dezenas de milhões de operações. Não é jogo para o Pentium que está na sua mesa, seja lá qual for, com qualquer configuração.

As CPUs dos micros executam muitos milhões de instruções por segundo, mas são instruções elementares, como incrementar o valor de um número ou compará-lo com outro. A simples verificação de autenticidade de um correntista pode custar centenas de milhares destas instruções, usando mais do que tempo de CPU, pois há recuperação, armazenamento e transferência de dados de e para os arquivos onde a informação fica.

Um servidor (ou mainframe) não se mede pelos megahertz da CPU. Uma medida muito aceita é a capacidade de iniciar novas transações por minuto (TPM, como definido pelo Transaction Processing Performance Council, www.tpc.org). Usando a medida TPC-C, um sistema que resolveria nosso problema de 10 mil TPM poderia ser comprado por uns 390 mil dólares (um AcerAltos 21000c/s com 4Gigabytes de memória e 1.8 Terabytes de disco, que chega a 23.235 TPM). A “folga” de 100% garante os picos, quando muito mais gente do que a média poderia querer usar o sistema.

O campeão do mundo em TPC-C, hoje, é um Sun Starfire Enterprise 10000, que custa mais de 12 milhões de dólares e vai a 115.395 TPM. O servidor tem 64 CPUs Ultra SPARC II 400MHz, 64Giga de memória e 15Tera de disco. Os clientes são 32 Sun UltraSPARC IIi de 333MHz, aos quais podem se conectar, simultaneamente, mais de 90 mil usuários. Vai bem dizer que isso não é um mainframe? Em algum lugar, atrás da sua conta bancária, é capaz de ter um deles aguentando o tranco…

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